Este blog é dedicado a todos os curiosos que desejam saber mais sobre Arte e Música Popular Brasileira. Para os francófonos, uma oportunidade de descobrir um novo e fascinante universo cultural. Para os brasileiros, o interesse em conhecer o ponto de vista de um jornalista europeu sobre sua rica produção artística
mercredi 26 novembre 2008
Duas semanas de folga/ Deux semaines de congé…
Cher(e)s lecteurs privilégiés de ce blog (si, si !). Je m’octroie deux petites semaines de congé et je préfère ne pas bâcler mon journal de voyage tant il y a de choses à faire en si peu de temps à Rio et Sao Paulo. Je reviendrai à commenter mes errances musicales vers le 8 décembre, tandis qu’à cette même date, je reprendrai le programme Tropicalia, dédié à la MPB, sur Radio Judaica. Comme amuse-bouche, je vous offre deux clichés pris lors de deux shows haut de gamme auxquels j’ai pu assister cette semaine : Pedro Luis e a Parede (PLaP) et Maria Rita…D’autres photos suivront…A très bientôt.. !
Caros leitores privilegiados deste blog (sim, sim !), durantes duas semanas estarei no Rio e Sao Paulo, e voltarei a escrever aqui depois do dia 8 de dezembro. Como petiscos, ofereço a vocés aqui dois clichés de shows de primeira ao quais pude assistir, fim de semana passada : Pedro Luis e a Parede e Maria Rita! Até breve !
lundi 17 novembre 2008
Tropicália 6, lundi 17 novembre, la ‘Playlist’…
Générique : YAMANDU COSTA : « Lamentos do morro » (Garoto)
PAULA MORELEMBAUM : « O que vier eu traço » (Alvaide/ Zé Maria)
MARIA RITA : « Novo amor » (Edu Krieger)
DAÚDE : « Sozinhas de novo » (Celso Fonseca)
SEU JORGE : « America do norte » (Seu Jorge/ Gabriel Moura/ Pretinho da Serrinha)
ANA CAROLINA : « Encostar na tua » (Ana Carolina)
ANGELA RôRô : « Tola foi você » (Angela RôRô)
NEY MATOGROSSO & PLAP : « A Ordem é Samba » (Jackson do Pandeiro)
MILTON NASCIMENTO & JOBIM TRIO : « Brigas nunca mais » (A.C. Jobim/ Vinicius de Moraes)
JORGE BENJOR : « O Homen do espaço » (Benjor)
CAETANO VELOSO : « Fora da ordem » (Caetano Veloso)
GILBERTO GIL : « De Onde vem o Baião » (Gilberto Gil)
IVAN LINS : « Saindo de mim » (Ivan Lins/ Vitor Martins)
JOÃO BOSCO : « Água, mãe água » (João Bosco)
DJAVAN : « Flor de lis » (Djavan)
Enquanto isso na Lapa…
Pendant ce temps à Lapa…
TERESA CRISTINA E GRUPO SEMENTE: « Gema » (Caetano Veloso )
ANA COSTA : « Olhos felizes » (Marina Lima & Antonio Cícero)
MARIANA BALTAR : « Deixa comigo » (Assis Valente)
MARCOS SACRAMENTO : « Meu rádio e meu mulato » (Herivelto Martins)
MART’NÁLIA : « Novos tempos » (Claudio Jorge)
SURURU NA RODA : « Medley Chico Buarque » (Chico Buarque)
MARIANA BALTAR: "Pressentimento" (Elton Medeiros/ H.B. de Carvalho)
samedi 15 novembre 2008
Vamos casar !... Marions- nous les uns les autres!
Casamento é um passo importanta na vida ! Mais ainda no Brasil do que aqui na nossa velha Europa ocidental. E família também, para um belgo-armênio como eu, não é brincadeira, não ! Assim, eu não tinha como recusar o convite de uma parenta minha para comparecer ao seu casamento, que acontecerá em São Paulo, no próximo sábado, 22.
Já tirei do armário o meu único terno e minha gravata, que não uso desde meu último emprego formal... e isso já faz anos e anos... Bem, não posso me queixar, pois também será um ótimo pretexto para tentar assistir a alguns shows programados para a capital paulistana, de 20 a 23 de novembro: Maria Rita, Pedro Luis e a Parede, Paula Morelembaum, Zeca Pagodinho e Daúde ( pensei até que essa última tinha sumido). Será que o dever familiar vai me liberar para alguns desses eventos... ? Vou ter que jogar certinho... Em seguida, para não perder a viagem, serão dez dias no Rio, a partir do dia 26, onde “me aguardam”, entre outros: Lenine, Ivan Lins, Ana Carolina, Angela RôRô, Bena Lobo e Mercedes Sousa; além da noite dos 8 anos da MPB FM (com Ney Matogrosso, Seu Jorge, Doces Cariocas e Silvia Machete). Aqui nesse blog será relatada mais uma vez essa minha andança musical, a partir agora dessa curta temporada.
Aguardando ansioso por mais essa viagem ao Brasil, antes de voar até seu clima aconchegante (espero !) no próximo dia 19, quarta-feira que vem, ainda farei mais um programa « Tropicália », na segunda agora, dia 17, às 18:30 h. - hora de Brasília. Acredito que vocês já sabem como acessar o programa, certo? Não? É só clicar no link à direita da sua tela.
Bem, já é hora para passar esse meu velho terno, que por sinal está com um aspecto bem “surrado” ! Até breve !
Bon, être invité à une fête de mariage ne m’a jamais rempli d’une joie débordante. Mais si la cérémonie se déroule à São Paulo, Brasil, alors vous comprendrez que cela change furieusement la donne..! Soudainement, je me sens envahit par le sens du devoir familial -car il s’agit bien d’une parente- et il ne faut pas longtemps pour que mon ‘smooking’ poussièreux ne prenne sa place dans la valise. Le départ est prévu pour ce mercredi 19 novembre.
Le programme s’annonce ainsi: 5 jours à São Paulo, suivi de 10 autres à Rio de janeiro, histoire de profiter pleinement de ce déplacement toujours éprouvant. Est-ce que ce devoir familial me laissera le temps, dans la capital “paulistana”, de goûter à l’un ou l’autre show...rien n’est moins sûr...Car le destin ne m’a pas épargné au niveau des tentations...Rien que du 20 au 23 de ce mois, Maria Rita, Pedro Luis e a Parede, Zeca Pagodinho, Paula Maurelembaum, Daúde envahissent les scènes de la mégapole. Ceci dit Rio ne sera pas en reste puisque du 25 décembre au 5 décembre –dates de ma présence dans “la cidade maravilhosa”- sont déjà annoncés Lenine, Ivan Lins, Ângela RôRô, Ana Carolina et surtout la grande soirée anniversaire des 8 ans de la radio MPB FM, dans la grande salle ‘Vivo Rio’, où se produiront Ney Matogrosso, Seu Jorge, et le jeune groupe Doces Carioca avec entre autre l’artiste-performer Silvia Machete. De plus ce matin, à mon réveil, je reçois une invitation qui me vient de Bena Lobo pour le lancement de son dernier album au Théâtre Rival. Bref, du choix, je n’aurai que l’embarra, et je fais serment qu’ici, je vous rendai compte de mes errances musicales...D’avance, je ne sais dire à quoi j’assisterai... En attendant ce lundi 17, il y aura encore deux heures délicieuses du programme Tropicália sur radio Judaica (90,2 FM), et si vous ne savez toujours pas comment y accéder sur le net, il suffit de cliquez sur la colonne de droite de cette page, et ceci à 21h30...Sur antenne ou ici même, je vous retrouve bientôt...abraços e até breve!
BENA E EDU LOBO: "Na Carreira" (Edu Lobo/ Chico Buarque)
Já tirei do armário o meu único terno e minha gravata, que não uso desde meu último emprego formal... e isso já faz anos e anos... Bem, não posso me queixar, pois também será um ótimo pretexto para tentar assistir a alguns shows programados para a capital paulistana, de 20 a 23 de novembro: Maria Rita, Pedro Luis e a Parede, Paula Morelembaum, Zeca Pagodinho e Daúde ( pensei até que essa última tinha sumido). Será que o dever familiar vai me liberar para alguns desses eventos... ? Vou ter que jogar certinho... Em seguida, para não perder a viagem, serão dez dias no Rio, a partir do dia 26, onde “me aguardam”, entre outros: Lenine, Ivan Lins, Ana Carolina, Angela RôRô, Bena Lobo e Mercedes Sousa; além da noite dos 8 anos da MPB FM (com Ney Matogrosso, Seu Jorge, Doces Cariocas e Silvia Machete). Aqui nesse blog será relatada mais uma vez essa minha andança musical, a partir agora dessa curta temporada.
Aguardando ansioso por mais essa viagem ao Brasil, antes de voar até seu clima aconchegante (espero !) no próximo dia 19, quarta-feira que vem, ainda farei mais um programa « Tropicália », na segunda agora, dia 17, às 18:30 h. - hora de Brasília. Acredito que vocês já sabem como acessar o programa, certo? Não? É só clicar no link à direita da sua tela.
Bem, já é hora para passar esse meu velho terno, que por sinal está com um aspecto bem “surrado” ! Até breve !
du 20 au 23 novembre (photo divulgation)
Bon, être invité à une fête de mariage ne m’a jamais rempli d’une joie débordante. Mais si la cérémonie se déroule à São Paulo, Brasil, alors vous comprendrez que cela change furieusement la donne..! Soudainement, je me sens envahit par le sens du devoir familial -car il s’agit bien d’une parente- et il ne faut pas longtemps pour que mon ‘smooking’ poussièreux ne prenne sa place dans la valise. Le départ est prévu pour ce mercredi 19 novembre.
Le programme s’annonce ainsi: 5 jours à São Paulo, suivi de 10 autres à Rio de janeiro, histoire de profiter pleinement de ce déplacement toujours éprouvant. Est-ce que ce devoir familial me laissera le temps, dans la capital “paulistana”, de goûter à l’un ou l’autre show...rien n’est moins sûr...Car le destin ne m’a pas épargné au niveau des tentations...Rien que du 20 au 23 de ce mois, Maria Rita, Pedro Luis e a Parede, Zeca Pagodinho, Paula Maurelembaum, Daúde envahissent les scènes de la mégapole. Ceci dit Rio ne sera pas en reste puisque du 25 décembre au 5 décembre –dates de ma présence dans “la cidade maravilhosa”- sont déjà annoncés Lenine, Ivan Lins, Ângela RôRô, Ana Carolina et surtout la grande soirée anniversaire des 8 ans de la radio MPB FM, dans la grande salle ‘Vivo Rio’, où se produiront Ney Matogrosso, Seu Jorge, et le jeune groupe Doces Carioca avec entre autre l’artiste-performer Silvia Machete. De plus ce matin, à mon réveil, je reçois une invitation qui me vient de Bena Lobo pour le lancement de son dernier album au Théâtre Rival. Bref, du choix, je n’aurai que l’embarra, et je fais serment qu’ici, je vous rendai compte de mes errances musicales...D’avance, je ne sais dire à quoi j’assisterai... En attendant ce lundi 17, il y aura encore deux heures délicieuses du programme Tropicália sur radio Judaica (90,2 FM), et si vous ne savez toujours pas comment y accéder sur le net, il suffit de cliquez sur la colonne de droite de cette page, et ceci à 21h30...Sur antenne ou ici même, je vous retrouve bientôt...abraços e até breve!
BENA E EDU LOBO: "Na Carreira" (Edu Lobo/ Chico Buarque)
mardi 11 novembre 2008
Tropicalia 5, lundi 10 novembre, la playlist…
Générique : YAMANDU COSTA : « Lamentos » (Garoto)
Artistes brésiliens chantant en français :
Artistas brasileiros cantando em francés :
-OTTO : « Changez tout » (Appolo/ Otto)
-CAETANO VELOSO : « Dans mon île » (M.Pon/ H.Salvador)
-GILBERTO GIL : « La Renaissance africaine » (Gilberto Gil)
-SILVIA TELLES : « Gardez moi pour toujours »- Por causa de vocé – (A.C.Jobim/ Dolores Duran/ vers : Serge Rhode)
-OS MUTANTES : « Le premier bonheur de jour » (Jean Renard/ Frank Gerald)
-MAYSA : « Ne me quitte pas (Jacques Brel)
-JARDS MACALÉ : « Ne me quitte pas » (Jacques Brel)
-NARA LEÃO : «Funeral de um lavrador » -en français- (Chico Buarque)
-LOS HERMANOS : « Cher Antoine » (Rodrigo Amarante)
-JOÃO GILBERTO : « Que reste-t-il de nos amours » (Charles Trenet/ Léon Chauliac)
-CECÍLIA LEITE & CHICO BUARQUE: « Dis-moi comment » (A.C.Jobim/ Chico Buarque)
-CÁSSIA ELLER : « Non, je ne regrette rien » (Michel Vaucaire/ Charles Dumont)
-CLARA MORENO : « Les Cactus» (Jacques Dutronc)
- MARTINHO DA VILA : « La Bohème » -Boemia- (Jacques Plante/ Charles Aznavour)
-CHICO BUARQUE : « Joanna Francesa » (Chico Buarque)
-SELMA REIS : « Sem Fim » -Je t’aime-(Patrick Bruel/ vers : Sergio Natureza)
-CAPITAL INICIAL : « Sem cansar »- C’est comme ça- (C.Ringer/ F.Chichin/ vers : Dinho Ouro Preto et Alvin L.)
-ALCEU VALENÇA : « La Belle de jour » (Alceu Valença)
Elles (et il) chantent LOS HERMANOS
Elas (e ele) cantam LOS HERMANOS
-VIRGINIA ROSA : « Samba a dois » (Marcelo Camelo)
-MARIA RITA : « Cara Valente » (Marcelo Camelo)
-MARIANA AYDAR : « Deixe o verão » (Rodrigo Amarante)
-NILA BRANCO : « Sentimental » (Rodrigo Amarante)
-ROBERTA SÁ : « Casa pré fabricada » (Marcelo Camelo)
-ANNA LUISA : « Um Par » (Rodrigo Amarante)
-NEY MATOGROSSO : « Veja bem meu bem » (Marcelo Camelo)
-MARIA JOÃO : « A Outra » (Marcelo Camelo)
…et bien d’autres choses… …e outras coisas…
-PAULINHO MOSKA : « Solidão » (Dolores Duran)
-MILTON NASCIMENTO & JOBIM TRIO : « Chega de saudade » (A.C.Jobim/ Vinicius de Moraes)
-EDU LOBO & TOM JOBIM : « Pra Dizer adeus » (Edu Lobo/ Torquato Neto)
-MARIA BETHÂNIA : « Só me fez bem » (Edu Lobo/ Vinicius de Moraes)
-PAULA MORELENBAUM & MARCOS VALLE : « Ilusão à toa » (Johnny Alf)
-MONIQUE KESSOUS : « Frevo meio envergonhado » (Monique Kessous)
-ADRIANA CALCANHOTTO : « Porto Alegre » (Péricles Cavalcanti)
-ARNALDO ANTUNES & MARISA MONTE : « Paradeiro » (Antunes/ Monte/ Brown)
-PITTY : « Admiravel chip novo » (Pitty)
-O RAPPA : « Monstro Invisivel » (O Rappa)
-PEDRO LUIS E A PAREDE : « Cabô » (Zé Renato/ Pedro Luis)
-LENINE : « A Mancha » (Lenine/ Lula Queiroga)
-BENA LOBO : « Imagem e semelhança » (Bena Lobo/ Kiko Continento/ Milton Nascimento)
-RITA RIBEIRO : « Caminhos de sol » (Herman Torres/ Salgado Maranhão)
-ZIZI POSSI : « Mais simples » (José Miguel Wisnik)
-FRED MARTINS : « Tempo afora » (Fred Martins/ Marcelo Diniz)
-MARIANA BALTAR : « Pressentimento » (H.B. de Carvalho/ Elton Medeiros)
-MOYSEIS MARQUES & ELTON MEDEIROS: « 14 Anos » (Paulinho de Viola)
-SIBA E A FULORESTA : « Meu time » (Siba)
FRED MARTINS: présentation du dvd: "Tempo afora"
samedi 8 novembre 2008
Anna Luisa : girando em torno de ritmos brasileiros
Eu ficava muito intrigado com essa garota do Leblon (RJ) completamente enlouquecida por ritmos nordestinos e percussões. O seu segundo disco, « Do Zero » (2006), estava repleto de sotaques regionais, derivados do maracatu, do baião, do xote e até da ciranda, e nada disso soava superficial. Com participações e apoio de Pedro Luis e Rodrigo Maranhão, entre outros, « Do Zero » foi uma das boas revelações do início do ano passado. Porém, Anna insistiu (muito !) em me dizer que esse disco era só uma base firme para construir « Girando », seu neném recém-nascido que acaba de ser lançado agora. A gente se encontrou em agosto desse ano, e a cantora, simpática e muito animada, já me revelava os bastidores deste último disco, já muito bem recebido pela crítica em geral. O fato é que, na verdade, só pude escutar as faixas disponíveis na página da cantora no Myspace. O disco está a caminho da velha Europa…Assim me prometeu Anna Luisa… Mas antes de abordar « Girando », eu quis saber um pouco mais sobre o início de sua carreira profissional…
Daniel : Me conta, Anna; sobre o seu primeiríssimo disco, « Novelas acústico » (2002): parece que você tente escondê-lo da sua discografia...
Anna Luisa : O primeiro? Ah, sim, mas na verdade não se tratava de um disco autoral. Foi uma primeira experiência, a partir de uma idéia do selo Deckdisc, reunindo temas de novelas que haviam feito sucesso, em formato acústico, porque isso estava um pouco na moda ... e o selo estava à procura de uma cantora. Eu passei num teste, algo parecido com um teste de elenco. Mas para mim, foi uma boa oportunidade. O projeto era bem aberto, e eu pude participar da escolha do repertório mais conveniente à minha voz. Pode-se dizer que foi mesmo o meu primeiro trabalho realmente profissional. Mas eu não o considero parte da minha discografia, porque de fato não havia muito de mim mesma nesse projeto.
D : Mas isso te ajudou a ficar um pouco mais conhecida do público, não?
AL : Esse é um tipo de álbum de catálogo básico de um selo. A Deckdisc é conhecida por lançar diversas coletâneas, como por exemplo: “O Melhor do Forro”, “O Melhor do Samba”, esse tipo de coisa... É o tipo de disco sobre o qual não se trabalha muito o marketing; são colocados sobre as grandes bancadas das lojas, onde são fáceis de serem enxergados e manuseados. Eu também não queria ter meu nome associado artisticamente a esse tipo de produto de ocasião. É claro que eu não o renego; mas ao mesmo tempo, mesmo havendo qualidade nele sob certo aspecto, eu só o consideraria como parte da minha discografia se ele fosse mais pessoal... enfim, não é meu verdadeiro início de carreira.
D : De fato, eu conheci você através do seu álbum “Do Zero”, que já tem quase dois anos, e sei que você está em vias de lançar seu mais novo disco... Assim, sou todo ouvidos; como dizem os cariocas, manda aí...
AL : (rsrs) Eu escolhi 12 títulos… Foi um trabalho de escutar, escutar... Existe tanto material de vários compositores, e há tantos artistas talentosos... É um trabalho de pesquisa constante, que é preciso ser feito, eu acho... Eu mal terminei, com muito esforço, esse disco – “Do Zero” – e já comecei a procurar por algumas coisas novas. Eu já pensava em canções para o próximo trabalho. Na realidade, sobre « Do Zero », eu o considero um campo de experimentações; creio mesmo que o primeiro disco de uma cantora é sempre uma experiência, que pode dar frutos, da mesma forma como poderá ser bem acolhida pelo público.
D : Eu o achei muito sucedido, bem acabado...
AL : É verdade... Mas é acima de tudo um terreno sobre o qual pude colocar as fundações para construir um segundo disco. O que também poderia ser arriscado... Uma boa acolhida do primeiro poderia causar uma grande expectativa sobre o segundo, e essa expectativa causar alguma frustração... Mas no meu caso, eu mesma senti uma evolução de um álbum para outro. Principalmente graças a meus shows. É por isso que a sonoridade de « Girando » me dá essa certeza de evolução. Ele mostra mais claramente que tipo de artista eu sou... Mostra o que eu posso fazer de melhor musicalmente... Dentro das minhas escolhas, eu mantive alguns compositores que já constam do primeiro disco, e eu mesma continuei compondo. Mas eu não tenho a pretensão de fazer um trabalho inteiramente autoral; e de qualquer maneira, também não tenho muitas canções em mente agora... Então eu não me obrigo a ser cem por cento autoral.
D : Em “Do Zero”, praticamente a metade do repertório do álbum é da sua autoria...
AL : Em « Girando » só tem quatro canções da minha autoria... Eu fui muito seletiva... Nem tudo que eu compus me foi necessariamente satisfatório. Muitas vezes, quando eu componho uma canção, acabo sentindo que ela não foi feita para que eu mesma a interprete; mas ela pode, sim, servir à voz de uma outra intérprete.
D : Com quais compositores você continuou trabalhando em “Girando”? ... Maranhão, Edu Krieger ? Eu já assisti a você lá, no espaço Cinémathèque, com eles ... foi muito bom, e divertido...
AL : Bom, meus colaboradores de sempre são o Emerson Mardhine… E eu compus uma nova música, Seu moço com o Edu e com um novo colaborador, que é o Rodrigo Vidal -Pedido ao tempo -, que foi quem inclusive produziu “Do Zero”, e agora “Girando”. Há também uma canção que é de minha única autoria, Bailarina do mar. Dentre as outras faixas, eu incluí um novo título do Rodrigo Maranhão, Baião digital. Esse é um dos artistas com quem eu tenho uma sintonia muito grande ! Você deve ter sentido isso ao longo do show... E o restante são mesmo muitas releituras, que como já te contei, são baseadas num trabalho de pesquisa constante... São aquelas canções que apelidamos de “lado B”, ou então algumas músicas bastante conhecidas à que damos uma roupagem nova.
D : Tem também a “reprise” de um título de sucesso?
AL : …Na verdade, não… Tem uma música do Gilberto Gil que se chama Parabolicamará , que foi completamente “desconstruída”, a qual refizemos sob um ritmo mais sincopado ( ela canta ), completamente diferente do que ele havia feito na época. É uma abordagem diferente, que sempre ousamos fazer... E também gravei Edu Lobo... Ele me fez a gentileza de participar do álbum; ele divide a voz comigo numa de suas composições: No cordão da saideira, você conhece? É uma canção maravilhosa... ( Anna cantarola ... ). Foi um luxo... Muito envolvente, mesmo… Eu adoro a voz dele, mesmo que ele não se gabe dela... Deixa eu ver (...ela pára e pensa)... Tem uma canção de inteira autoria do Eugênio Dale, Tonta . Tem também um título de um compositor que é um dos meus amigos da roda de sarau, Antônio Dionísio. Ele é um mineiro que mora nos Estados Unidos, e que não é muito conhecido aqui…Ele compôs a única música em inglês do disco, que se chama Cold Kiss ; é um títuilo que soa um pouco tropicalista, e que cai bem no clima do álbum... Ela é mais lenta… Ela tem uma faceta bem “brasileira”. E, sim, olha só (...refletindo ainda)… Ah, sim, e tem alguma coisa dos Novos Baianos… Pingos da chuva … Você conhece essa música?
D : Ih, agora você me pegou… !
AL : Essa precisa ser pesquisada ! Essa é primeira que eu escolhi para o meu novo repertório... Eu adoro Baby Consuelo, uma grande intérprete, dona de uma swing incomparável. Ela se perdeu um pouco a nível musical, mas ela poderia ter feito uma carreira como a da Gal Costa... É uma das músicas dos Novos Baianos menos conhecidas, mas perfeitamente dentro do estilo deles. É uma carta que eu guardei na manga... Mas eu sabia que um dia com certeza eu iria gravá-la. Então, agora, espera aí... Foram três releituras, a música do Eugênio, mais quatro minhas... já são oito... ( tem uma “luz” ): Cachaça Mecânica , de Erasmo e Roberto Carlos !
D : Ah, sim ( eu canto ) ... ela foi reeditada em francês ... Para uma certa Marie Myriam ...
AL : (rs)… Fizemos com um novo arranjo… Fizemos como um samba moderno... Eu diria que ela tem um pouco a ver com Um Par , do Rodrigo Amarante, do meu segundo disco... dentro dessa mesma tendência, mas um pouco mais “encorpada”... Nós tivemos mais tempo, dessa vez, de utilizar os instrumentos que não tínhamos no primeiro disco. Para a abertura do álbum, foi escolhida Lágrima Negra, uma música inédita de uma amiga minha, Ana Clara. O Rodrigo Vidal acabou ouvindo um de seus demos, porque ela também esta iniciando sua carreira... Ela compõe…Achamos que essa canção também caberia bem no disco...
D : Agora que você enumerou conscientemente as músicas, como você definiria “a cor” do seu álbum… ?
AL: Eu continuo com a minha paixão alucinada pelos ritmos brasileiros mais diversos, e eu adoro explorá-los... Tem o Baião, o Maracatu, o Xote... e tem o samba, com esse seu lado de raiz, com seus breques, mas não obrigatoriamente “quadrado”; e tudo isso revestido de um toque modernista... Ah ! Me lembro agora de outro título: Folguedo popular, que é um forró para o qual pedimos ao Nicolas Krassik para fazer o arranjo. Ele aderiu com o seu grupo, Os Cordestinos, para entrar com uma rabeca, um violino, um baixo acústico e as percussões... A música soa realmente muito autêntica, bem tradicional... Bem, não são exatamente a zabumba, o acordeon e o triângulo; não se trata de um trio nordestino... Mas pelo conjunto do disco em si, fica difícil definir um estilo específico... Eu fico à vontade para que os estilos se imponham por sim mesmos... porque também é muito pop... Eu o definiria como muito "brasileiro", simplesmente. Eu acredito convictamente que « Girando » é bem mais maduro; Eu chego a repassar as críticas na minha memória, para checar se elas estão sendo boas ou não... mas acabo concluindo que não devo dar tanta atenção a isso: estou satisfeita com o meu próprio resultado, e também muito orgulhosa pela minha escolha dos compositores.
D : E para falar das músicas do Nordeste, eu venho constatando algumas coisas, e gostaria de saber o que você pensa a respeito.... Eu tenho a impressão de que o Nordeste sempre veio em auxílio à MPB quando essa se empobreceu. E mesmo nesses últimos anos, não são poucos os artistas que vêm do Norte. E existem esses cariocas embalados por esses ritmos, como o Pedro Luis, o Edu Krieger ou o Rodrigo Maranhão… E até você mesma... Como você explica esse fenômeno de artistas cariocas que bebem das fontes nordestinas?
AL : É verdade, e você está certo; é assim mesmo que acontece... Não sei bem como. Geralmente me perguntam: “ De que estado você é? Bahia ou Pernambuco?
D : E você, no entanto, nem aparenta!
AL : Sim, eu sei (rs), e eu não sei se é por brincadeira, ou se acreditam mesmo que eu venha de lá. Mas enfim... Essas regiões são tão ricas, é impressionante... Você conhece o Nordeste, não é..? Você não acha que isso é culturalmente inacreditável? É um encantamento... eu não sei... Quando eu chego em Salvador ou Recife... Alguma coisa acontece... eu não sei explicar... De fato, eu sou um tipo mais europeu, mas deve haver alguma coisa afro dentro de mim... Eu adoro percussão, e já participei de inúmeros grupos de percussão dentro de oficinas de samba e de maracatu; e isso consolidou a minha paixão pelos ritmos. Também participei de uma oficina de danças populares, e me vi seduzida por esse universo... Do Pedro Luis eu já era a maior fã, e Lenine... esse é o meu guru! Sem dúvida foi ele quem me influenciou mais diretamente. Seus arranjos, com interferências eletrônicas, porém sem exageros, mesmo que no fundo ele seja fundamentalmente rock... E também tem o Gil, que sempre foi eclético, indo da Bossa ao forró, sem jamais perder sua identidade.
D : E são justamente as duas canções do Pedro Luis que me seduziram de imediato no seu segundo álbum: « Do Zero » e « Vale quando pesa »…
AL : Ele me cedeu esses dois títulos inéditos... Mas em « Girando », eu não tive nem a oportunidade de gravar alguma coisa do Pedro... Eu recebo tantas coisas boas... E as má também! Enfim, eu recebo um monte de coisas! (rsrs). No disco tem também a participação especial do Quizomba, o Grupo do qual eu fazia parte, que é um “bloco de baile”. O Quizomba não tinha composições próprias como o Bangalafumenga... Eles tocavam o Jorge Benjor, o Tim Maia, o Rappa, o Lenine, e trabalham com peças ritmadas mais cabíveis mesmo para um bloco... E o objetivo era mesmo animar bailes. Eu fiquei três anos com eles, o que me proporcionou um leque de experiências.
D : Eu me perguntava como você estaria aceitando as críticas da imprensa...A gente fala as vezes da falta de personalidade das vozes das novas cantoras; até você foi criticada para esse fato...
AL : Sim, é verdade. Mas por outro lado, na crítica do show « Samba Social Clube », a imprensa foi muito positiva a meu respeito. Esse projeto reuniu artistas de todos os estilos, reunindo 35 canções. Algo parecido com o projeto « Casa de samba ». Foi dito que a minha apresentação foi uma das melhores daquele grupo, tanto quanto a do Lenine e a da Fernanda Abreu, quando eu reentrei em cena junto com A Nilze Carvalho e a Ana Costa… Quanto às críticas, a gente deve estar aberta a recebê-las. Sobre « Do Zero », eu diria que ali eu me lancei, o que acho correto; mas eu ainda não estava ali senhora absoluta de mim mesma.
D : ...Mas você não pára de depreciar esse disco, que eu pessoalmente considero bastante maduro..!!
AL : Você acha? Sem dúvida, eu sou muito exigente; eu sou um tipo de pessoa que busca melhorar constantemente. Se eu leio uma crítica negativa, eu logo me questiono: « Deve haver uma razão... ». Eu venho me aperfeiçoando, e continuo tendo aulas de canto; eu diria que eu venho mesmo melhorando a cada show, e é isso mesmo que eu estou buscando... Quanto à questão do timbre da voz, isso não me afeta muito; até porque existem outras opiniões a respeito, e essas opiniões variam de pessoa para outra.
D : É bem evidente que nos últimos anos, há um afloramento de novas cantoras, mais do que nunca, talvez... Será que o papel dessas novas intérpretes não será o de emprestar suas vozes a novos talentos masculinos, como já fizeram no passado Elis e Bethania para Ivan Lins, Milton, João Bosco… ?
AL : Eu não acho que uma cantora deva gravar esse ou aquele artista porque ele está na moda. Eu gravo um compositor por amar a sua canção, sem dar atenção se aquilo é uma tendência ou não. Mas dentro dos novos talentos, há muitos de qualidade. Não acho que hoje existam mais cantoras surgindo do que antes. É preciso perceber que existem diferentes tipos de carreiras. Há aquelas que passarão suas vidas cantando nos bares da Lapa. Pessoas extremamente talentosas... Porque elas não atingem um patamar superior em suas carreiras é algo que eu não entendo bem... questão de oportunidade, sem dúvida, ou falta de meios... ou falta de carisma, de sorte... Enfim, não sei dizer... Há também essa prática de encontros regulares entre artistas para tocarem juntos, fazerem uma espécie de “jam session”, uma roda de sarau. Nos reunimos com Roberta Sá, Edu Krieger, Pedro Luis, o marido de Roberta... E mostramos as novidades uns aos outros. Esse processo de troca é muito natural.
D : É verdade que, de um ponto de vista europeu, parece que está surgindo mesmo um tipo de “nova onda” autoral carioca, mesmo com membros do Los Hermanos, como a banda + 2, com Domenico Kassin; Fino Coletivo; Doces Cariocas, com Alexia Bontempo; Pierre Aderne…
AL : É engraçado mesmo; tem músicas que eu regravei que vêm desses “saraus” organizados por Pierre et Alexia. É engraçado mesmo, como todo mundo está interligado, de uma forma ou de outra...
D : Agora, lá no fundo, a gente pode dizer que você faz parte da “jeunesse dorée” do Rio? Você é capaz de viver da sua música?
AL : ( ela ri… ) Eu já fiz parte dessa juventude privilegiada do Rio, sim, mas hoje nem tanto. Não, eu não poderia viver da minha música. E eu ainda estou investindo nela... Mas seria possível... Você sabe... existem diversas maneiras de se construir uma carreira. É possível cantar regularmente três vezes por semana, em diversos lugares. Eu já cantei em hotéis, como o Meridien, durante uma certa época, e o cachê era razoável. Idem com o Quizomba; mas quando a gente começa uma carreira autoral, fica mais complicado. Nesses ambientes, ocorre a imposição de um repertório e de um estilo. Com o Quizomba, inclusive, era muito cansativo para a minha voz, e eu tinha medo de perdê-la.
ANNA LUISA (com Rodrigo Maranhao e Edu Krieger): "Bailarina do mar"
e "Cabra cega" (no Canecao)
mercredi 5 novembre 2008
Tropicalia 4 du 3/11 : la Playlist…
Mais uma vez apresentamos uma programação eclética, porém um pouco mais dedicada à Bossa Nova e à “Bossa jazz”, com os sempre atuais João Donato, Johnny Alf e Leny Andrade…
Neste Bloco, foram ao ar gravações originais, como por exemplo, aquela versão genial swingada de « Lobo Bobo », interpretada por Wilson Simonal; ou a primeira gravação do clássico « Samba de Verão », do Marcos Valle…
Destaque também, no segmento mais pop, para « Canção Áspera » pinçada do último e excelente disco “Estandarte”, do Skank…
Devido ao sucesso do programa “Tropicália”, na próxima segunda-feira serão 4 horas de “show brasileiro”, a partir das 17:30 h. (hora de Brasília). Teremos uma primeira hora especial com artistas “tupiniquins”, cantando em outros idiomas…Vai haver pérolas; vale a pena conferir ! Mas é surpresa... Até lá…
Neste Bloco, foram ao ar gravações originais, como por exemplo, aquela versão genial swingada de « Lobo Bobo », interpretada por Wilson Simonal; ou a primeira gravação do clássico « Samba de Verão », do Marcos Valle…
Destaque também, no segmento mais pop, para « Canção Áspera » pinçada do último e excelente disco “Estandarte”, do Skank…
Devido ao sucesso do programa “Tropicália”, na próxima segunda-feira serão 4 horas de “show brasileiro”, a partir das 17:30 h. (hora de Brasília). Teremos uma primeira hora especial com artistas “tupiniquins”, cantando em outros idiomas…Vai haver pérolas; vale a pena conferir ! Mas é surpresa... Até lá…
PS : para notícias frescas sobre esse blog querido, aconselho ao caro leitor que se torne assinante, o que não custa nada… mesmo.
É só observar na coluna à direita : « Subscribe »…
…Yes, you can !
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Générique : YAMANDU COSTA : « Lamentos do morro » (Garoto)
LULU SANTOS : « Assim caminha a humanidade » (Lulu Santos)
MARINA LIMA : « Á Francesa » (Claudio Zoli/ Antonio Cícero)
SKANK : « Canção Áspera » (Samuel Rosa/ Chico Amaral)
CÁSSIA ELLER & BARÃO VERMELHO : « Malandragem » (Cazuza/ Frejat)
JAY VAQUER : « Pode agradecer » (Jay Vaquer)
CHARLIE BROWN JR : « Prohibida pra mim (Grazon ) » (Marcão/ Chorão/ Champignon/ Thiago/ Pelado)
BENA LOBO : « Sábado » (Seu Jorge/ Bena Lobo/ Daniel Gonzaga/ Régis Faria)
FERNANDA ABREU : « Brasileiro » (Teta Lando/ Fernanda Abreu)
GUILLERME ARANTES : « Meu mundo e nada mais » (Guilherme Arantes)
LENY ANDRADE : « Batida diferente » (Durval Ferreira/ Mauricio Heinhorn)
JOHNNY ALF & GAL COSTA : « Ilusão à toa » (Johnny Alf)
PERY RIBEIRO : « O Barquinho » (Roberto Menescal/ Ronaldo Boscoli)
FERNANDA TAKAI : « Kobune » (O Barquino) (Menescal/ Boscoli)
MARCOS VALLE : « Samba de verão » (Marcos Valle/ P.S. Valle)
JOÃO DONATO : « Bananeira » (João Donato/ Gilberto Gil)
WILSON SIMONAL : « Lôbo bôbo » (Carlos Lyra/ Ronaldo Boscoli)
AQUARELA CARIOCA : « Kashmir » (Bohnam/ Page/ Plant)
CHORA DAS 3 : « Carinhoso » (Pinxinguinha/ João de Barro)
ORCHESTRA IMPERIAL : « Não foi em vão » (Thalma de Freitas)
FINO COLETIVO : « Boa Hora » (Alvinho Lancelotti/ Domenico Lancelotti)
MOINHO : « Doida de varrer » (Ana Carolina/ Chacal)
GIANA VISCARDI : « 4321 » (G.Viscardi/ Michael Ruzitschka)
MARIANA AYDAR : « Na Gangorra » (Giana Viscardi/ Michael Ruzitschka)
VANIA ABREU : « A Minha alma… » (M.Yuka/ Falcão/ Xandão/ M.Lobato/ L.Farias)
CLARA NUNES : « Novo amor » (Chico Buarque)
RITA LEE : « Esse tal de roque enrow » (Paulo Coelho/ Rita Lee)
LENINE : « É Doce morrer no mar » (Jorge Amado/ Dorival Caymmi)
samedi 1 novembre 2008
'Tropicalia 3' à la loupe…
En général, un animateur ‘bien comme il faut’ commencera toujours par vous dire qu’il sera « très heureux de vous retrouver pour un nouveau numéro de …». Je fais partie de ceux-là, mais je confesse que ce plaisir, très égoïstement, je me l’octroie en priorité. C’est en effet l’unique moment de la semaine, qu’après des heures d’écoutes, je me donne l’occasion d’apprécier les musiques choisies… avec un casque. C’est bête à dire, mais on ne se rend pas compte des innombrables petites ingéniosités qui se cachent dans un enregistrement et qui, souvent, passent inaperçues malgré des enceintes performantes. Bref, quand j’entame le ‘show’, seul dans le studio, les écouteurs sur les oreilles, j’entre en religion et en osmose avec les dieux de la MPB et je l’espère, en communion avec l’auditeur. Mais quittons ce vocabulaire mystique…
En 1996, Belô Velloso sortant son premier album parrainée par
Bethânia, Caetano et Adriana Calcanhotto.
Une autre satisfaction durant la préparation du programme : la redécouverte d’albums, non pas oubliés, mais un peu délaissés dans mon inconscient musical. Ainsi, pour ce troisième numéro de Tropicalia, ce fut une vraie délectation de réécouter le premier album de Belô Velloso (1996), nièce de Caetano et Maria Bethânia, tout comme le premier disque homonyme de Rita Ribeiro (1997), excellente artiste du Maranhão, déjà bien installé sur la scène brésilienne. Mêmes retrouvailles avec les superbes « Inclinações musicais » (1981) de Geraldo Azevedo et « 7 desejos » (1992) de Alceu Valença, ces deux piliers de la musique nordestine qui avaient conquis le territoire national brésilien dès les années 70.
Dans ce premier bloc du programme, dédié plutôt aux artistes consacrés, je pus replonger également dans un des derniers grands disques de Caetano Veloso, « Estrangeiro », le premier album de l’artiste qui me soit tombé entre les mains en 1989, alors que je ne connaissais rien de lui. Dix ans auparavant, en 1979, Angela RôRô lançait son premier album homonyme, truffé de petits joyaux (dont ‘Amor, meu grande amor’), qui affirmait une compositrice au tempérament bien trempé. Avec ‘Cartomante’, j’ai voulu faire place à une de ces chansons en forme d’hymne exalté comme seul Ivan Lins sait les créer (ici au travers du trio vocal féminin Folia de 3). Et enfin -parce qu’on oublie souvent de le compter parmi les grands- il me tenait à cœur de passer un titre de Luiz Melodia (‘Paixão’), un artiste incontournable de la scène brésilienne depuis que Gal Costa avec ‘Perola Negra’ en 1971, et Maria Bethânia avec ‘Estação Holy estação’ en 1972, l’imposèrent comme un des compositeurs les plus doués de sa génération. A l’heure ou j’écris ces lignes, un « MTV Especial, Estação Melodia », vient d’ailleurs de sortir sur le marché.
Durant ces 180 minutes de programme –exceptionnellement- je pus faire la part belle à de nombreuses nouveautés. D’abord celles de jeunes talents, comme Flavio Henrique que j’avais découvert récemment avec son album « Pássaro pêncil », emprunt d’une délicatesse mélodique proche des grands compositeurs de son Minas Gerães natal comme Milton Nascimento, Toninho Horta ou Flavio Venturini . Pour le côté plus fun, j’ai fait place à Silvia Machete, la nouvelle sensation de Rio, qui, comme je l’ai dit maintes fois, vaut autant pour son timbre vocal affiné que pour ses numéros de cabaret que l’on pourra d’ailleurs découvrir dans le dvd « Eu nao sou nenhuma santa » qu’elle a lancé officiellement ce 30 octobre, au Théâtre Rival (RJ).
Toujours dans la catégorie ‘nouveautés/ jeunes talents’, j’ai craqué pour les premiers albums d’Aline Muniz, intelligemment commercial, et Adriana Peixoto qui fait preuve d’une maturité hérité d’une famille d’artistes illustres (Cauby Peixoto, Ciro Monteiro…). Concernant les poids lourds, je venais enfin de recevoir les albums de :
- Lenine avec « Labiata », disque puissant, au climat sombre, mais trop peu original et élaboré mélodiquement.
- Zeca Pagodinho avec « Uma Prova de amor », loué par toute la critique mais bien trop lisse et consensuel à mon goût. Un disque de samba ‘de raiz’ se doit de sentir la bière et la sueur, ce qui ne semble pas être l’avis d’Universal music.
- Pedro Luis e a Parede avec « Ponto enredo », produit par Lenine, et qui sera indiscutablement une des belles ‘plaques’ de cette année.
- le groupe pop Skank avec le très bon « Estandarte », que je n’ai hélas pas eu le temps de programmer ce lundi. Sans faute pour le ‘Tropicalia 4’ !
Parmi les nouvelles belles surprises que j’avais déjà partagées dans les programmes précédants, ce fut un plaisir de découvrir d’autres titres des derniers albums de Mart’nália, Zeca Baleiro, Suely Mesquita, Chico Cesar, et Ed Motta. Ce dernier qui, avec « Chapter 9 », signera peut-être un des meilleurs albums brésiliens de 2008 …entièrement chanté en anglais !
Après avoir passé en revue trois des nouvelles voix talentueuses de la MPB : Thais Gulin, Glaucia Nasser, et Anna Luisa (dont l’interview sera le prochain post), j’attaquais une partie exclusivement nordestine avec les déjà-cités Alceu Valença et Geraldo Azevedo, faisant un détour ensuite par la légende du ‘Mangue Beat’, Chico Science & Nação Zumbi, et son digne héritier, Totonho e Os Cabra, un sociétaire de l’émission ! Je fus également heureux de faire découvrir l’instrumentiste français très courtisé, Nicolas Krassik, et son groupe Cordestinos, virtuose tant du violon que du ‘rabeque’, son cousin régional du nord qui se joue à bout de bras avec un archet arqué.
Quand à Siba (ex-Mestre Ambrosio) e a Fuloresta, il nous fait découvrir la ‘ciranda’ et le ‘maracatu’ pur jus avec son album « Toda vez que eu dou um passo » (2007) et son monde musical fascinant qui lui a valu de nombreuses récompenses dans la catégorie un peu fourre-tout de musique régionale. Je terminais enfin le programme de ce lundi dernier avec trois grands mythes de la musique brésilienne : Tom Jobim (1927-1994), Dorival Caymmi (1914-2008) et Pixinguinha (1897-1973). Le premier avec ‘Eu sei que vou te amar’ (Tom –Vinicius de Moraes) dans la version de Rosa Passos, sans doute la des plus parfaite interprète actuel de la Bossa Nova ; Dorival avec l’ingénu ‘A Vizinha do lado’ par Bebeto Castilho, bassiste et flûtiste du légendaire groupe de bossa jazz Tamba Trio ; et Pixinguinha avec le classique du chorinho ‘Cochichando’ interprété par Gente Fina & Outras Coisas, groupe dans lequel officie justement Bebeto Castiho. A lundi, pour un nouveau voyage musical.. !
PS : n’hésite pas à vous inscrire (‘subscribe’ à droite), pour recevoir les nouvelles fraîches de ce blog.
En écoute (en haut à droite), Pedro Luis e a Parede et Skank.
"Dia Branco" (Geraldo Azevedo) par Simone
En 1996, Belô Velloso sortant son premier album parrainée parBethânia, Caetano et Adriana Calcanhotto.
Une autre satisfaction durant la préparation du programme : la redécouverte d’albums, non pas oubliés, mais un peu délaissés dans mon inconscient musical. Ainsi, pour ce troisième numéro de Tropicalia, ce fut une vraie délectation de réécouter le premier album de Belô Velloso (1996), nièce de Caetano et Maria Bethânia, tout comme le premier disque homonyme de Rita Ribeiro (1997), excellente artiste du Maranhão, déjà bien installé sur la scène brésilienne. Mêmes retrouvailles avec les superbes « Inclinações musicais » (1981) de Geraldo Azevedo et « 7 desejos » (1992) de Alceu Valença, ces deux piliers de la musique nordestine qui avaient conquis le territoire national brésilien dès les années 70.
Dans ce premier bloc du programme, dédié plutôt aux artistes consacrés, je pus replonger également dans un des derniers grands disques de Caetano Veloso, « Estrangeiro », le premier album de l’artiste qui me soit tombé entre les mains en 1989, alors que je ne connaissais rien de lui. Dix ans auparavant, en 1979, Angela RôRô lançait son premier album homonyme, truffé de petits joyaux (dont ‘Amor, meu grande amor’), qui affirmait une compositrice au tempérament bien trempé. Avec ‘Cartomante’, j’ai voulu faire place à une de ces chansons en forme d’hymne exalté comme seul Ivan Lins sait les créer (ici au travers du trio vocal féminin Folia de 3). Et enfin -parce qu’on oublie souvent de le compter parmi les grands- il me tenait à cœur de passer un titre de Luiz Melodia (‘Paixão’), un artiste incontournable de la scène brésilienne depuis que Gal Costa avec ‘Perola Negra’ en 1971, et Maria Bethânia avec ‘Estação Holy estação’ en 1972, l’imposèrent comme un des compositeurs les plus doués de sa génération. A l’heure ou j’écris ces lignes, un « MTV Especial, Estação Melodia », vient d’ailleurs de sortir sur le marché.
Durant ces 180 minutes de programme –exceptionnellement- je pus faire la part belle à de nombreuses nouveautés. D’abord celles de jeunes talents, comme Flavio Henrique que j’avais découvert récemment avec son album « Pássaro pêncil », emprunt d’une délicatesse mélodique proche des grands compositeurs de son Minas Gerães natal comme Milton Nascimento, Toninho Horta ou Flavio Venturini . Pour le côté plus fun, j’ai fait place à Silvia Machete, la nouvelle sensation de Rio, qui, comme je l’ai dit maintes fois, vaut autant pour son timbre vocal affiné que pour ses numéros de cabaret que l’on pourra d’ailleurs découvrir dans le dvd « Eu nao sou nenhuma santa » qu’elle a lancé officiellement ce 30 octobre, au Théâtre Rival (RJ).
Toujours dans la catégorie ‘nouveautés/ jeunes talents’, j’ai craqué pour les premiers albums d’Aline Muniz, intelligemment commercial, et Adriana Peixoto qui fait preuve d’une maturité hérité d’une famille d’artistes illustres (Cauby Peixoto, Ciro Monteiro…). Concernant les poids lourds, je venais enfin de recevoir les albums de :
- Lenine avec « Labiata », disque puissant, au climat sombre, mais trop peu original et élaboré mélodiquement. - Zeca Pagodinho avec « Uma Prova de amor », loué par toute la critique mais bien trop lisse et consensuel à mon goût. Un disque de samba ‘de raiz’ se doit de sentir la bière et la sueur, ce qui ne semble pas être l’avis d’Universal music.
- Pedro Luis e a Parede avec « Ponto enredo », produit par Lenine, et qui sera indiscutablement une des belles ‘plaques’ de cette année.
- le groupe pop Skank avec le très bon « Estandarte », que je n’ai hélas pas eu le temps de programmer ce lundi. Sans faute pour le ‘Tropicalia 4’ !
Parmi les nouvelles belles surprises que j’avais déjà partagées dans les programmes précédants, ce fut un plaisir de découvrir d’autres titres des derniers albums de Mart’nália, Zeca Baleiro, Suely Mesquita, Chico Cesar, et Ed Motta. Ce dernier qui, avec « Chapter 9 », signera peut-être un des meilleurs albums brésiliens de 2008 …entièrement chanté en anglais !
Après avoir passé en revue trois des nouvelles voix talentueuses de la MPB : Thais Gulin, Glaucia Nasser, et Anna Luisa (dont l’interview sera le prochain post), j’attaquais une partie exclusivement nordestine avec les déjà-cités Alceu Valença et Geraldo Azevedo, faisant un détour ensuite par la légende du ‘Mangue Beat’, Chico Science & Nação Zumbi, et son digne héritier, Totonho e Os Cabra, un sociétaire de l’émission ! Je fus également heureux de faire découvrir l’instrumentiste français très courtisé, Nicolas Krassik, et son groupe Cordestinos, virtuose tant du violon que du ‘rabeque’, son cousin régional du nord qui se joue à bout de bras avec un archet arqué.
Quand à Siba (ex-Mestre Ambrosio) e a Fuloresta, il nous fait découvrir la ‘ciranda’ et le ‘maracatu’ pur jus avec son album « Toda vez que eu dou um passo » (2007) et son monde musical fascinant qui lui a valu de nombreuses récompenses dans la catégorie un peu fourre-tout de musique régionale. Je terminais enfin le programme de ce lundi dernier avec trois grands mythes de la musique brésilienne : Tom Jobim (1927-1994), Dorival Caymmi (1914-2008) et Pixinguinha (1897-1973). Le premier avec ‘Eu sei que vou te amar’ (Tom –Vinicius de Moraes) dans la version de Rosa Passos, sans doute la des plus parfaite interprète actuel de la Bossa Nova ; Dorival avec l’ingénu ‘A Vizinha do lado’ par Bebeto Castilho, bassiste et flûtiste du légendaire groupe de bossa jazz Tamba Trio ; et Pixinguinha avec le classique du chorinho ‘Cochichando’ interprété par Gente Fina & Outras Coisas, groupe dans lequel officie justement Bebeto Castiho. A lundi, pour un nouveau voyage musical.. !PS : n’hésite pas à vous inscrire (‘subscribe’ à droite), pour recevoir les nouvelles fraîches de ce blog.
En écoute (en haut à droite), Pedro Luis e a Parede et Skank.
"Dia Branco" (Geraldo Azevedo) par Simone
mercredi 29 octobre 2008
Tropicalia 3, 27/ 10 : La ‘Playlist’.
Silvia Machete dans 'Tropicalia 3': sur scène, elle boit, elle fume...et fait des bulles (Photo Daniel A.)
Générique : YAMANDU COSTA : « Lamentos do Morro » (Garoto )
TRIBALISTAS : « Passe em casa » (Marisa Monte -Margareth Menezes – A.Antunes- C. Brown)
CAETANO VELOSO : « Os Outros romanticos » (Caetano Veloso)
LUIZ MELODIA : « Paixão » (Luiz Melodia)
FOLIA DE 3 : « Cartomante » (Ivan Lins -Vitor Martins)
WILSON SIMONINHA : « Essência » (W.Simoninha -Marcelo Yuka)
RENATO RUSSO : « La Forza della vita » (P.Vallesi -Dati)
ANGELA RÔRÔ : « Amor, meu grande amor » (Angela RôRô –Ana Terra)
BELÔ VELLOSO & MARIA BETHANIA : « Brincando » (Alessandre Leão -Mabel Veloso)
IVETE SANGALO : « Festa » (Anderson Cunha)
FLÁVIO HENRIQUE : « Mãe » (Flavio Henrique -Guilherme Wisnik)
ADRIANA PEIXOTO : « Ação entre amigos » (Dalmo Medeiros –Danilo Caymmi)
ALINE MUNIZ : « O Baile » (A.Muniz –Marcos de Vita- Eloisa Melro)
SILVIA MACHETE : « Eu só quero saber de vocé » (Silvia Machete -C.Nickens)
RODRIGO SANTOS : « Estrangeiro » (R.Santos –Mauro Sta Cecilia –Mauricio Barros)
ED MOTTA : « The Runaways » (Ed Motta –Robert Gallagher)
PEDRO LUIS E A PAREDE : « Tem juizo mas não usa » (Pedro Luis –Lula Queiroga)
LENINE : « Magra » (Lenine –Ivan Santos)
CHICO CESAR : « Girassol » (Chico César)
ZECA BALEIRO : « Toca Raul » (Zeca Baleiro )
SUELY MESQUITA & ZELIA DUNCAN : « Imenso » (Suely Mesquita –Zélia Duncan)
ZECA PAGODINHO & JOÃO DONATO : « Sambou sambou » (J.Donato –J .Mello)
MART’NÁLIA : « Ela é minha cara » (Ronaldo Bastos –Celso Fonseca)
THAÍS GULIN : « Cinéma incompleto » (Arrigo Barnabé –Thaís Gulin)
GLAUCIA NASSER : « Sambista bom » (G.Nasser –I.Rosa –Marta Costa)
ANNA LUISA : « Cabra –cega » (Anna Luisa –Emerson Mardhine)
GERALDO AZEVEDO : « Dia Branco » (G.Azevedo –Renato Rocha)
ALCEU VALENÇA & ZIZI POSSI : « Tesoura do desejo » (Alceu Valença)
RITA RIBEIRO : « Missiva » (Zeca Baleiro)
NICOLAS KRASSIK : « Relembrando meu pai » (Dominguinhos)
SIBA E A FULORESTA : « Toda vez que eu dou um passo » (Siba)
TOTONHO E OS CABRA : « Tudo pra ser feliz » (Totonho -Toni Monteiro)
CHICO SCIENCE & NAÇÃO ZUMBI : « Macô » (C.Science –Jorge du Peixe –E.BIBlovosky)
ROSA PASSOS : « Eu sei que vou te amar » (Tom Jobim –Vinicius)
BEBETO CASTILHO : « A Vizinha do lado » (Dorival Caymmi)
GENTE FINA & OUTRAS COISAS : « Cochichando » (Pixinguinha)
TRIBALISTAS : « Passe em casa » (Marisa Monte -Margareth Menezes – A.Antunes- C. Brown)
CAETANO VELOSO : « Os Outros romanticos » (Caetano Veloso)
LUIZ MELODIA : « Paixão » (Luiz Melodia)
FOLIA DE 3 : « Cartomante » (Ivan Lins -Vitor Martins)
WILSON SIMONINHA : « Essência » (W.Simoninha -Marcelo Yuka)
RENATO RUSSO : « La Forza della vita » (P.Vallesi -Dati)
ANGELA RÔRÔ : « Amor, meu grande amor » (Angela RôRô –Ana Terra)
BELÔ VELLOSO & MARIA BETHANIA : « Brincando » (Alessandre Leão -Mabel Veloso)
IVETE SANGALO : « Festa » (Anderson Cunha)
FLÁVIO HENRIQUE : « Mãe » (Flavio Henrique -Guilherme Wisnik)
ADRIANA PEIXOTO : « Ação entre amigos » (Dalmo Medeiros –Danilo Caymmi)
ALINE MUNIZ : « O Baile » (A.Muniz –Marcos de Vita- Eloisa Melro)
SILVIA MACHETE : « Eu só quero saber de vocé » (Silvia Machete -C.Nickens)
RODRIGO SANTOS : « Estrangeiro » (R.Santos –Mauro Sta Cecilia –Mauricio Barros)
ED MOTTA : « The Runaways » (Ed Motta –Robert Gallagher)
PEDRO LUIS E A PAREDE : « Tem juizo mas não usa » (Pedro Luis –Lula Queiroga)
LENINE : « Magra » (Lenine –Ivan Santos)
CHICO CESAR : « Girassol » (Chico César)
ZECA BALEIRO : « Toca Raul » (Zeca Baleiro )
SUELY MESQUITA & ZELIA DUNCAN : « Imenso » (Suely Mesquita –Zélia Duncan)
ZECA PAGODINHO & JOÃO DONATO : « Sambou sambou » (J.Donato –J .Mello)
MART’NÁLIA : « Ela é minha cara » (Ronaldo Bastos –Celso Fonseca)
THAÍS GULIN : « Cinéma incompleto » (Arrigo Barnabé –Thaís Gulin)
GLAUCIA NASSER : « Sambista bom » (G.Nasser –I.Rosa –Marta Costa)
ANNA LUISA : « Cabra –cega » (Anna Luisa –Emerson Mardhine)
GERALDO AZEVEDO : « Dia Branco » (G.Azevedo –Renato Rocha)
ALCEU VALENÇA & ZIZI POSSI : « Tesoura do desejo » (Alceu Valença)
RITA RIBEIRO : « Missiva » (Zeca Baleiro)
NICOLAS KRASSIK : « Relembrando meu pai » (Dominguinhos)
SIBA E A FULORESTA : « Toda vez que eu dou um passo » (Siba)
TOTONHO E OS CABRA : « Tudo pra ser feliz » (Totonho -Toni Monteiro)
CHICO SCIENCE & NAÇÃO ZUMBI : « Macô » (C.Science –Jorge du Peixe –E.BIBlovosky)
ROSA PASSOS : « Eu sei que vou te amar » (Tom Jobim –Vinicius)
BEBETO CASTILHO : « A Vizinha do lado » (Dorival Caymmi)
GENTE FINA & OUTRAS COISAS : « Cochichando » (Pixinguinha)
vendredi 24 octobre 2008
Zeca Baleiro : « Compositores “brega” fazem parte da cultura popular ».
Nada mais complicado do que encontrar um artista na correria, em plena promoção do seu novo álbum... Quero dizer com isso que, minhas entrevistas, como jornalista estrangeiro, requerem mais disponibilidade por parte do artista, pois observo sua carreira sob um ângulo diferente: mais geral, num primeiro momento; mas também mais profundo, logo em seguida, explorando as facetas menos óbvias de um compositor. Isso pede tempo e tranqüilidade.
E eu tinha conseguido apenas 20 minutos com o Zeca Baleiro, mas meu objetivo secreto era conseguir “esticar” esse tempo. Afinal, foram quase 60 minutos em companhia do cantor maranhense, bem à vontade…Eu era o último jornalista daquela manhã de 19 de agosto, antes dele provar seu “brunch”… Neste formato de “blog”, decidi deixar muitos trechos, coisa que teria cortado no formato de jornal...
Enquanto explico ao Baleiro o projeto dum livro, a gente começa a falar sobre São Paulo...
Zeca: ...e você, vai a São Paulo com freqüência?
Daniel: Bom, só quando eu realmente preciso...
Z: Você ama mesmo o Rio, hein?
D: Na verdade eu não conheço bem São Paulo... eu me recordo de uma entrevista sua, parte de um de seus dvd´s, altas horas; e no meio da noite você fala da cidade...
Z.: É, exatamente... no dvd “Pet Shop mundo cão” ...
D: Você tem insônia, então deve ser difícil trabalhar de manhã, como hoje, por exemplo... ?
Z: Quando a gente lança um disco, então, é pior... Mas eu de fato adoro as manhãs. É o melhor momento para me conectar com a tranqüilidade, eu me sinto cheio de energia, cheio de esperança (rs)... cheio de vida, né?
D: Bom, vamos então ao seu disco, que eu escutei rapidamente; afinal, eu não podia chegar aqui sem pelo menos uma carta na manga não é !? Foi o Antônio Miguel, d´O Globo, quem me deu... Rapidinho: já que a primeira coisa que eu li diz “volume 1”, como sou perspicaz , suponho então que vá existir um “volume 2”!!; mas depois de ter lido os textos, eu não tenho outro “gancho”... ou eu passei ao largo...
Z.: Na realidade é apenas uma chamada de marketing; não há nada que aponte para algo que pode vir a remeter a esse “volume 1”. Você não viu o “release”?
D: Nem o release nem o disco! Eu fui abandonado... (rs), mas você vai me explicar...
Z.: é, é isso, eu quero te mostrar... e pra te responder à questão do “gancho”... Há nisso uma certa ironia, na verdade... todo mundo se pergunta do porque do “volume 1”, ainda mais quando o título é “O Coração do homem bomba”.
D.: Não é um álbun conceitual, então...
Z.: Não, na verdade o ponto de partida desse projeto é o resultado... Faz três anos que eu lancei meu último disco de inéditas, o “Baladas do Asfalto” (2005), que foi uma tentativa de fazer um pop mais assumido, FM, radiofônico... mais “friendly”, como diriam os americanos... e foi depois de apresentar o show sobre o conteúdo do disco ao longo de dois anos pelo Brasil todo, e assim... foi bom... E ao final de tudo isso, eu senti a necessidade de produzir um novo álbum de inéditas. Eu montei um estúdio para mim em São Paulo, bem pequeno, modesto... mas bom, com tudo que é preciso...e foi um projeto bem agradável, que me demandou menos pressão, e até me poupava de fazer a ponte aérea Rio-São Paulo a toda hora para estar com os músicos... o que me aborrecia um ponto quando fiz os discos anteriores. E agora, eu posso ficar uns cinco minutos no estúdio, sair pra tomar uma cerveja, ou um café numa padaria.
D.: Pra beijar o português......
Z.: Isso! (rs)... e então tudo começou a caminhar de maneira mais calma, o que pode ser percebido na fluidez do meu trabalho.
D.: ...sem pressão...
Z.: Sem pressão e ao mesmo tempo sem prazo. Já comecei a trabalhar em fevereiro desse ano várias bases para novas canções, algumas recentes mesmo, e outras antigas, recicladas; ou mesmo músicas de outros compositores... até que eu chegue a antever um álbum e uma linha de trabalho. Já trabalhei precisamente em 28 músicas, em 20 dias, e isso com o grupo que toca comigo e de quem sou parceiro há muito tempo... e algum convidado, vez por outra; e tudo de maneira calma, tranqüila... é um projeto do tipo caseiro... o co-produtor é o engenheiro de som que tem viajado junto com a gente todo esse tempo... a rigor, tudo acontece bem à vontade. E essa atmosfera me permite ser mais criativo, mais produtivo... e já eu se falou nisso... vamos produzir dois discos, não vamos ficar num só. E há canções tão boas...
D.: Você estará tão bem quanto neste?
Z.: (risos) eu não sei... eu gostei muito...
D.: Você não jogaria nada na lata de lixo?
Z.: Eu gostaria que não. E há mesmo músicas que devem ser expurgadas; senão elas viram uma coisa difícil de se esquecer; ficam ocupando um espaço na memória... é preciso livrar-se delas, para dar lugar a um trabalho novo, fresco...E então chegamos à origem da questão sobre fazer dois volumes. Certamente este aqui tem uma identidade mais rítmica, mais festiva; e o próximo será mais calmo, mais doce; e finalmente serão dois discos, com a mesma sonoridade de um mesmo grupo de músicos tocando juntos, mas sem que haja uma coisa conceitual, estudada, cerebral...
D.: ...É verdade que eu acho esse disco menos cerebral, mais leve que “Líricas”, por exemplo... Mas me desculpe que vou fazer a mesma pergunta que tudo mundo já fez, ou vai fazer... sobre o título ( “O Coração do Homem Bomba” ). Sorry!
Z.: Que nada, sem problema... eu me disponho a responder a qualquer pergunta (rs). O álbum abre com uma vinheta de poucos segundos... tum-tum, bum-bum (rs)... é um tipo de compasso para acalentar... de “acalanto”, “malambaia” ( cantigas de ninar para crianças ); e esse ritmo ficou na minha cabeça, e eu senti que esse timbre soava bem, e era provocador de uma certa maneira... aquilo podia sugerir várias definições... eu entrei em alguns blogs. Eu li que que eu promovia o terrorismo, coisas brutais – isso vindo dessas pessoas que só lêem as coisas literalmente. Mas trata-se de uma alegoria com a vida contemporânea. As bombas somos nós mesmos, à beira de uma iminente explosão; o que é uma idéia evidente, eu sei, não é uma teoria original... Mas se existe alguma coisa que pode fazer retardar o processo de explosão, essa coisa é a música... é a arte de uma forma geral, e a música popular mais especificamente. É que a música tem um aspecto assim, mais imediato, instantâneo. Ela tem um formato mais simples do que as artes plásticas, o teatro, o cinema... é um vetor mais democrático... uma música nos vem, assim, como se diz... como é bom... uma canção de Ray Conning... Jaques Brel ( rs). Existe uma certa onipresença da música popular... ninguém vive sem a música, jamais; mas muita gente pode viver sem teatro, cinema ou outras formas de arte...
D.: Conheço gente que não tem o menor interesse por música: meu pai, por exemplo; um grande amigo meu..., pra eles a música só serve como fundo sonoro.
Z.: Ah, é ? Mas peça a essas pessoas que puxem do fundo de suas memórias uma música... mesmo uma canção que cantavam pra elas quando ainda eram crianças...
D.: É verdade que meu pai escutou muito “The Platters”...
Z.: “The Platters”!!... “Only You”..(cantarolando)! ( rs ).
D.: Bom, deixemos meu pai quieto. Por que dois volumes, e não um álbum duplo?
Z.: Eu não gosto... acho muito indigesto... Mas dentro desse contexto, é fato que é uma experiência, essa de lançar dois volumes em três meses... Talvez não seja uma boa estratégia; é uma experiência... comercialmente muita gente acha que não vá funcionar... que os dois discos vão acabar se anulando; vão rivalizar entre si.
D.: Existe um bom exemplo, a partir da Marisa Monte, com os dois álbuns “Universo ao meu redor” e “Infinito particular”, que venderam bem, ambos...
Z.: ... mas os dela foram lançados ao mesmo tempo... E, claro, Marisa Monte basicamente é uma artista que vende muito bem... Vamos ver, pode ser uma boa experiência... eu já não trabalho mais tanto em função do mercado fonográfico.... eu já vendi muito bem, e meu primeiro álbum ganhou disco de ouro...
D.: Quais foram os seus melhores em vendas?
Z.: Os três primeiros: “Stephen Fry...”, “Vo´imbola” e “Líricas” – venderam em torno de 150.000...
D.: ... e não “Pet Shop mundo cão” ?
Z.: Não ... houve problemas com a falência do selo em pleno processo do lançamento... vendeu 60.000. “Palavras e Silêncio”, com o Fagner, foi igualmente disco de ouro, mas “Baladas do asfalto” teve também uma repercussão menos expressiva.
D.: Eu achei “Baladas do asfalto” mais difícil de atingir um público mais amplo: mais rock, mais blues...
Z.: Eu acho que isso se deu num contexto diferente. Os meus três primeiros discos foram lançados numa época de melhores condições de mercado; até mesmo a marisa Monte, que você usou como exemplo, não vende mais como nesses primeiros anos.
D.: Observe que Ana Carolina vendeu muito bem seu último álbum duplo “Dois Quartos”...
Z: Eu acho isso indigesto; eu não escuto um só disco de uma só vez... Eu preciso refletir sobre ele... Da mesma forma como 50.000 pessoas que irão comprar meus discos no Brasil, esse público vai assimilar isso dentro desses três meses ( três meses entre o volume 1 e o volume 2 ). A gente me pergunta: “Você não acha que é muito pouco tempo entre os dois... ?”. Não, esse projeto é para “agora”. Durante esses três meses, os que quiserem comprar irão comprar; os que quiserem conhecer, buscarão na internet. E assim, finalmente, mais importante para a divulgação do disco – mais do que a imprensa, mais do que as entrevistas, e todas as mídias... é o Show, esse que entra em cartaz agora ( 22.08.2008 ); e esse show vai começar a partir de capitais menos badaladas, como as do Norte do país, como Manaus, Belém... praças mais isoladas, onde os artistas não vão tão freqüentemente... é uma boa forma de se popularizar esse trabalho.
D.: E você planeja essa turnée para um ano?
Z.: Eu creio que sim...quando você vai fazer um show em Brasília, por exemplo, três meses mais tarde há uma expectativa pelo seu retorno. Em Portugal, por exemplo, já me conhecem, e tenho muitos amigos là; e eles lamentam freqüentemente que so faça uma turnée de três meses. Mas depois não há demanda. O mesmo acontece na Espanha, no Canadá... Aqui não; você vai a Curitiba, e você pode retornar ainda três ou quatro vezes mais tarde... Com a tournée “Baladas”, isso durou dois anos. Mas também porque o show evoluiu, e atingiu sua maturidade. Nessa turnée de agora, vai haver mais músicos, vai haver metais... para que o show reflita o disco, bem caloroso, ritmado...
D.: E o repertório inclui o conteúdo do “volume 2” que ainda vai ser lançado?
Z.:Não! Talvez uma ou dua músicas, e também aquelas que o público sempre pede.
D.: Para falar mesmo do disco, eu ainda não pude ouvir mais do que uma vez; e assim não posso dar uma opinião minha definitiva; mas eu o achei festivo, alegre, me lembrou aquela tournée que você fez há uns dois anos, que se chamava “O Baile do Baleiro”; estou certo?
Z.: Ah! Você viu o Bailé?
D.: Sim, e abria com um ritmo meio à la Emerson, Lake & Palmer... e eu pensei comigo mesmo: “olha só, o disco tem o mesmo clima do show...”.
Z.: É, o clima do disco foi muito influenciado pelo “Bailé”. Esse foi um projeto para se dançar, divertir-se, e de fato essa ambiência permaneceu a mesma no disco.
D.: Esse projeto do “Bailé” não foi além do Rio, onde eu assisti duas vezes?
Z.: Não, e a rigor, eu não o promovi além de São Paulo, a sua base. Durou lá. em São Paulo, um mês e meio, toda terça-feira, e foi um grande sucesso. São Paulo é bem receptiva a esse tipo de projeto. Com o tempo, ele cresceu, e me foi requisitado pelo Rio, por Belo Horizonte, Porto Alegre, Curitiba, etc... Mas era um projeto muito grande para ser levado em paralelo com outro, que era o que estava acontecendo. E eu coloquei ali toda a minha energia e não criei grande coisa. Agora eu devo me afastar. Eu disse a mim mesmo: “Eu vou me dedicar a trabalhar um disco novo e mais tarde eu vou resgatar esse projeto para fazer um dvd”.
D.: Era aí onde eu queria chegar...
Z.: É necessário que se grave esse dvd, por se tratar de um projeto muito visual.
D.: Todas as turnées da sua carreira foram imortalizadas por um suporte visual, com exceção do primeiro, correto?
Z.: Sim, eu acho que sou o artista que mais lançou dvd´s aqui no Brasil (rs).
D.: Em todo caso, é formidável para mim, que moro longe, saber que é possível através dos dvd´s assistir aos shows brasileiros mais importantes. E voltando ao disco, há um tema que recorrente, em pelo menos três canções, que é o retrato daquela mulher superficial, que você já tratou varias vezes, que tem a seu lado um pobre sujeito, um desgraçado, que diz não receber nada em troca, e que é abusado por ela...
Z.: (rs) E a minha mulher me disse: “Todo mundo vai pensar que eu sou assim!”
D.: Será que o pobre Zeca sofreu tanto assim em sua vida por causa das mulheres?
Z.: (rs) É muito mais interessante fazer músicas que falam de separações do que de um amor que funcione. Todas as canções de amor são canções de despedida, não?
D.:Sim, como a grande parte das músicas do Roberto Carlos... Nesse álbum aqui tem “Você é má”...
Z.: ...e “Ela falou, malandro”; essa é uma mulher terrível! Essa sim é uma mulher terrível! ( achando muita graça ). É um tema inerente à música popular; se você se lembrar de algumas composições de Cole Porter, Gershwing, Noel Rosa... tem lá essa mulher, essa megera mítica, essa bruxa; mas eu te juro que esse tipo não tem nada a ver com a minha mulher ... tadinha!...
D.: esse “tipo” é muito presente em Jacques Brel, justamente...
Z.: ...em Gainsbourg também... mas ela guarda também uma grande ironia...
D.: Já tinha trabalhado com o André Abujamara cuja canção “Alma não tem cor”, vocé retomou?
Z.: Nós nos apresentamos juntos em Cannes, no Middem, e foi a festa total! É uma figura! E essa canção surgiu no repertório dos meus shows em 2006. E todo mundo acha que é uma composição tipicamente minha...
D.: Em todo caso, ela se encaixa pefeitamente no espírito do disco.
Z.: Absolutamente, e ela é muito alegre, a garotada pede em todos os shows. Ela ficou tão incorporada ao show que eu decidi incluí-la no álbum. Era o momento; ela tem uma função despretenciosa, fluida...
D.: E uma vez seguindo o fio condutor do disco, há dois títulos bem “Baleirista” que são “Madureira” e “Elas por elas”... essa prática de composição que você tem de misturar as expressões tipicamente inglesas, francesas, é uma coisa muito sua...
Z.: É, eu gosto disso; é como a expressão “mise-en-scène”, que eu escrevi à brasileira, é mesmo intencional... você não vai encontrar no dicionário, mas é um mote já tão incorporado à linguagem cotidiana... mas não à escrita. Eu me permito escrevê-lo à brasileira.
D.: E essa mistura de motes estrangeiros... os brasileiros entendem?
Z.: Eu penso que sim, mas evidentemente essas “piscadas de olho” musicais mais sutis não aparecem para além da música popular – são os “trava-língua” ( jogos de palavras ). E agora para o show, eu coloquei uma canção de dois “emboladores” nordestinos que se chama “ O Coco do trava-lingua”. E eu mesmo não sei como é que eu vou interpretá-la, eu não sei nem ainda de cor as palavras. Poderia ter sido composta até por um poeta concretista como Augusto de campos, salvo o fato dela ter sido composta por analfabetos.
D.: Mas não é para ser cantada a dois?
Z.: Não! Enfim, deveria, sim, ser cantada a dois – uma “embolada” se canta a dois, por definição, ..é um desafio; mas eu vou cantá-la sozinho. Não sei como..(rs)
D.: Você agregou uma outra vinheta, composta com o Chico César, “Aquela prainha”...
Z.: Nada de pessoal contra os gringos, sabe (rs)! A letra é do Chico, e talvez não faça diferença se fala daquela praia do Ceará ou de qualquer outro recanto que os seus amigos europeus compraram... Por um lado é bom, mas por outro eles dominam a arte de devastar esses belos recantos... enfim, às vezes se instala um tipo de convivência com uma certa consciência do meio-ambiente; mas, claro, há uma piscadela de olho meio irônica sobre tudo isso...
D.: Ainda nesse álbum, encontramos músicas que seriam mais um exercício de estilo do que propriamente voltadas para algum “conteúdo”?
Z.: Vez por outra, sim; é só isso, mais um exercício verbal, como em “Nega, neguinha” ou mesmo “Elas por elas”...
D.: Parece que às vezes o que vale é rimar a qualquer preço... no fundo, você jamais pensou em escrever a poesia sem a música...
Z.: Sim, já; mas eu nunca publiquei, e nem sei se publicaria um dia.
D.: Mas tratam-se de textos ou de poesias... ?
Z.: É poesia; eu comecei a escrever a partir da inspiração poética; e depois, enveredado pelo caminho da música, eu fui abandonando... Agora, eu eventualmente exercito meu texto como cronista, a pedido da revista “Isto é”. Eles me convidaram a participar mensalmente.
D.: ... com o objetivo de ...
Z.: Com nenhum objetivo ao certo... Diversificar.
D.: “A Crônica do Baleiro”...
Z.: Poi é; há quatro cronistas que se revezam a cada semana... e dentro do meu site eu já venho escrevendo um pouco também. É um espaço onde compilo alguns de meus textos... Mas eu não me sinto investido de qualquer tipo de “missão literária”... hoje em dia pouco importa se escrever um livro... isso festá banalizado.
D.: Bom, mas quando você faz uso do efeito desses textos “diferentes”, nem que apenas para jogar com com o som desses motes, você o faz sobre uma melodia já composta?
Z.: Não, geralmente elas caminham justas – letra e melodia – e o tratamento desses motes é conduzido pelo ritmo deles mesmos.
D.: Mas tem algo de muito nordestino nessa forma de compor...
Z.: Completamente; os repentistas, os emboladores, fazem um tipo de arte popular que eu admiro muito.
D.: Você também nutre uma certa admiração por certos autores obscuros; pouco conhecidos ou “malditos”, como Luiz Ayrão, que consta do seu álbum. Quem é ele?
Z.: Luiz é um compositor que começou com canções para o Roberto Carlos nos anos sessenta. Ele fez sucesso através de duas canções que Roberto cantava e que as pessoas não sabiam quem era o autor... Uma é “Ciúme de você” ( cantando "... mas é ciúme, ciúme de você, ciúme de você..." ) e a outra... é uma música que a Vanessa da Mata gravou... “Nossa canção” ( "Ei, preste atenção... essa é a nossa canção... vou cantá-la seja onde for..." ) . Bom, é dele, é ele é um craque! E dali, para os anos setenta, ele se tornou sambista e começou a lançar discos de samba. Um tipo de samba que o público apelidou pejorativamente de “samba jóia”, no estilo do Benito di Paula, Originais do samba. Eu adoro esse tipo de música. É muito popular, na cabeça das paradas de sucessos.
D.: Do tipo “cafona”, como se diz aqui?
Z.: Sim, mas com o passar do tempo, elas são ouvidas dissociadas daquele tempo...
D.: “Cafona” ou “brega”, qual a diferença pra você... ?
Z.: Ah, por assim dizer, é a mesma coisa ... (rs)...mas eu adoro... Como Odair José; mas o Brasil é desse jeito: a gente gosta em segredo, mas não gosta de confessar. É como com os filmes do Almodóvar, com todo aquele “kitch” espanhol, eu acho que é o máximo! Mas no Brasil, ele é esnobado... Pode parecer coisa de liquidação, mas esses cantores têm um valor cultural real. Eu gosto muito de beber dessa fonte dos anos setenta. Essa canção do Luiz Ayrão é de 74... e já se vão 34 anos... parece uma eternidade. Um jovem fã que veio ao meu show, nunca tinha ouvido falar dele. Mas se ele for curioso, ele vai revisitar a obra desse compositor, e vai descobrir coisas fantásticas.
D.: A propósito, me lembro de ter visto alguns cartazes do Luiz Ayrão pela cidade...
Z.: É possível... ele tem mais de sessenta anos hoje, e é jurado de um programa de calouros, muito popular...
D.: Um outro personagem da música brasileira, bem diferente, que não é conhecido na Europa, que é o Ségio Sampaio...
Z.: ... nem no Brasil!
D.: Eu tenho a impressão de que ele é um artista meio ‘cult’, é isso mesmo?
Z.: O Sérgio tem uma história muito curiosa. Eu o conheci quando eu ainda era moleque. Os meus irmãos tocavam violão, e eles eram um pouco mais velhos... e levaram o primeiro disco do Sérgio lá pra casa. E fez um sucesso popular extraordinário em 72, 73. Um título que era “Eu quero botar meu bloco na rua”. Era um verdadeiro hino na época da ditadura. Um tipo de canção rebelde que as pessoas cantavam nas ruas, e que vendeu 500.000 exemplares... de compacto simples, sabe... Só um Roberto Carlos podia chegar a um número desses. E a partir daí ele não fez mais nada, nem mesmo quis fazer; você sabe: fazendo o tipo “marginal”... Ele não fez mais qualquer sucesso, e sua carreira desabou dentro de um certo ostracismo... Ele caiu no esquecimento com apenas três discos... O último que ele lançou vai ser relançado com o meu selo, “Saravá Discos”, remasterizado. O Sampaio morreu em 1994, ainda muito jovem, com 47 anos. Ele era “junky”...
D.: Morto jovem e “junky”, tudo para virar cult...!
Z.: Pois é, e em 1997, eu participei de uma homenagem que fizeram a ele que se chamou “Balão de Sampaio”, e foi através dessa homenagem que me tornei amigo de seu filho e de sua ex-mulher, duas pessoas adoráveis dos quais sou amigo íntimo. E ela me deu, logo depois daquela ocasião, uma fita k7 demo com diversas canções de Sampaio. Havia a intenção de lançar o primeiro “CD” de sua carreira; mas ele morreu no ano seguinte de uma pancreatite crônica que ele tinha desde a sua juventude. Enfim, uma história breve e trágica, que o colocou nesse panteon cult, mítico, dos artistas “marginais”. Histórias que as pessoas adoram, evidentemente... quando estão vivos ninguém lhes estender a mão, mas depois todos passam a adorar... O Sérgio Sampaio, foi uma referência muito forte para mim, e então eu relanço esse álbum que se chama “Cruel”, e eu estive sempre associado a ele... muita gente o conheceu através de mim... ele estava completamente esquecido pelas pessoas, mesmo pelos próprios fãs.
D.: Eu mesmo o conheci através desse disco-homenagem de 1997, e essa música famosa, “Eu quero botar meu bloco na rua”...
Z.: Uma canção envolvente; eu já cantaria “Tem que acontecer”...
D.: Voltando ao seu novo álbum, eu saquei um truque... o título “Você é má”; eu acho que já tinha ouvido esta canção...
Z.: Um programador de rádio me disse a mesma coisa ontem ( rs). Parece um tipo de canção familiar, a não ser que eu tenha plagiado a mim mesmo, inconscientemente (rs). As pessoas já a cantam em coro comigo... e eu não a canto há mais de uma semana. Já é um hit. Eu vou fazer uma enquete (rs) pra saber se eu me plagiei.... !!
D.: Já tem algum título que toca nas rádios, um single que, como se diz, “puxa” o álbum?
Z.: Na verdade, essa forma de funcionamento não acontece ainda muito aqui no Brasil. No Rio, a gente tem duas rádios importantes que tocam MPB: a JB FM e a MPB FM. A JB escolheu “Você é má”, e a MPB FM ainda não encontrou uma música adequada, ainda está à procura... Sobre o álbum, não tem muitas canções no “formato rádio”. No ‘volume 2’, já vai ter mais...
D.: O mais engraçado no “Coração”, talvez sejam as vinhetas, aquela do Beethoven...
Z.: (rs) Essa é engraçada... Talvez seja “paulistana” demais!. Na verdade é uma referência aos caras que vendiam gaz em São Paulo, de porta em porta, o caminhão deles tocava “Pour Elise”, de Beethoven; é muito característico... mas isso tem uns 15, 20 anos... quando o caminhão deles passava, a gente ouvia Beethoven através daquele som horrível...desafinado.
D.: Eu não acho que todo mundo vá entender (rs).
Z.: Não vai, não; mas eu acho ela divertida (rs).
D.: A mesma coisa com relação a “Nega, neguinha”; você faz muitas referências ao Candomblé... eu me pergunto se todo mundo aqui compreende esse olhar multicultural...
Z.: É sobretudo um jogo com os motes mais uma vez, um gracejo verbal , como eu chamo, sobre a “bahianidade”, a “africanidade”... todas essas coisas que são ditas sem sequer saber do que se trata verdadeiramente....
D.: Ok, e a gente termina falando sobre o título que fecha o teu álbum, essa carta ao Geraldo Vandré... eu me lembro de ter lido n´O Globo, uns meses atras sobre um leitor que se perguntava onde ele ficava, o que acontecia com ele...a canção vem desse fato?
Z.: É uma figura muito enigmática da nossa música um tipo de esfinge... ninguém sabe ao certo se ele foi torturado pelo regime militar, ou se sumiu por motivo fútil... mas ninguém sabe de verdade. Dizem que ele é visto freqüentemente em Teresópolis, barbudo, e que mora entre lá e São Paulo... Ele se tornou meio eremita... é uma figura curiosa que eu sempre achei enigmática. E o Chico Cesar, com quem eu não compunha desde muito tempo, me enviou uns esboços de textos cujo um sobre ele que achei fantastico... fazia alusão também àquela marcha da qual ele participou nos anos 60, contra a guitarra elétrica na MPB. É um episódio célebre dentro da época do Tropicalismo, com aquele antagonismo entre as figuras tradicionais da MPB e aqueles músicos cabeludos que queriam mudar a situação – a época dos “Mutantes”. É uma das reivindicações mais estranhas da história da nossa música. Até o Gil, eu acho que participou...
D.: Gil? Mas ele usava guitarra elétrica na época! Os Mutantes eram atras dele...
Z.: Sim, mas era mais para efeito das manifestações; e havia também o Edu Lobo; enfim, era uma época de confusão ( 1966-67 ). Mas tem uma coisa engraçada: de uma certa maneira, essa marcha deu resultado. Agora todo mundo quer lançar um disco acústico. Não por ideologia, mas por tendência do mercado ( rs). Todo mundo quer lançar seu “Unplugged”; é muito doido! E eu fiz essa música meio bossa... Mesmo que o Geraldo nunca tivesse feito Bossa Nova... mas aquilo tinha a ver com aquela batalha absurda e nacionalista.
D.: E a carreira dele, durou até quando?
Z.: A carreira dele foi muito curta, eu acho que depois disso, ele não fez mais nada; Mas ele tinha uma canção super boa: “Fica mal com deus”, que é a minha favorita. Ele fez belas músicas; mas ele é mais conhecido por aquela “caminhando cantando...” o hino contra a ditadura, que até Charlie Brown Jr. trouxe à cena. “Pra não dizer que não falei de flores”.
D: Ah é ? Mas você retomou Charlie Brown Jr, então...nada me surpreende mais...
Z: (rs) pois é... enfim, em 1978, relançaram um compacto duplo 45 com “Pra não dizer” e “Fica mal com deus”; e foi um sucesso. Mais tarde a Simone relançou também e foi um grande sucesso popular... Acho que ele esta vivendo de direitos autorais, porque essa música ainda toca constantemente no rádio ou em shows.
D.: De volta ao seu disco, “Toca Raul”, já estava disponível...
Z.: Sim, através do meu site, desde dezembro de 2007...
D.: Você a regravou para o disco?
Z.: Não, eu só remixei... Dentro de todo show pop, tem sempre um entusiasta que te pede pra tocar alguma música que ele gosta, mesmo de um outro artista... No início é só isso; mas depois, vira uma “onda” entre os amigos.
D.: Bom, e agora vai virar um pesadelo, que esse titulo vai levar...
Z.: (rs) sim, eu criei um monstro!
D.: Antigamente, a gente gritava para que você tocava “Lenha”. Eu li que você não gosta tanto de “Lenha” ( hit do segundo álbum ).
Z.: Não, tem muita gente que fala isso, mas não é assim. Eu tenho consciência que essa não é uma canção “menor” do meu trabalho... É o meu maior sucesso popular. É uma canção tão simples em sua concepção que ela toca um grande número de pessoas... mas evidentemente eu não quero cantá-la pelo resto da minha vida.
D.: Pode ser uma canção “brega”...
Z.: ..é, e uma dupla sertaneja retomou “Lenha”; imagina! Mas é bom...Tudo mudo pensa que a canção é deles (rs)
D.: Bom, Antes de terminar, já que eu vou receber de graça os discos do seu selo “Saravá” (rs), você pode adiantar alguma coisa?
Z.: Sim, e agora estão saindo duas novas trilhas sonoras, ligadas a espetáculos de dança cuja "Geraldas e avengas" e também o primeiro disco do Tiago Araripe, um cantor do Ceará, que participou de maneira mais periférica da vanguarda de São Paulo; tem um álbum de Lopes Bogéa, e do Antonio Vieira, que é um sambista de 87 anos; esses são os pricipais projetos realizados...
D.: Eu adorei o disco de Lopes Bogéa... mas não são álbuns pra se ganhar dinheiro...
Z.: (rs) De jeito nenhum; eu gasto mais do que ganho... É esse o impasse do selo nesse momento. É um luxo... um luxo que me custa caro! (rs). Há que se reorganizar para viabilizar isso... Você tem razão; são bons projetos, eu gosto desses “produtos”, mas não é muito viável comercialmente... Porém o disco da Hilda Hirst vendeu até agora 5.000 cópias.
D.: É sua contribuição à cultura, um pouco elitista, talvez..?
Z.: Sim, mas também é importante.... e agora eu produzo um cantor angolano, que se chama Filipe Mukenga, que é um artista muito interessante também; ele já trabalhou para Flora Purim, Djavan, e que ficou muito tempo sem gravar. Nós nos reencontramos em Cabo Verde, ficamos amigos e eu propus a ele produzir um álbum... esse será o último dessa fase do selo; em seguida vamospensar seriamente em reestruturar a parceria para obter obter uma melhor distribuição... Deve acontecer por volta de outubro.
Desde a entrevista, o Zeca continua sua turnée, e eperamos aquele "volume 2". Quem quiser conferir, "Débora", "Tacape", "E como diria Odaïr" estao disponivel no site oficial do cantor...
Enquanto explico ao Baleiro o projeto dum livro, a gente começa a falar sobre São Paulo...
Zeca: ...e você, vai a São Paulo com freqüência?
Daniel: Bom, só quando eu realmente preciso...
Z: Você ama mesmo o Rio, hein?
D: Na verdade eu não conheço bem São Paulo... eu me recordo de uma entrevista sua, parte de um de seus dvd´s, altas horas; e no meio da noite você fala da cidade...
Z.: É, exatamente... no dvd “Pet Shop mundo cão” ...
D: Você tem insônia, então deve ser difícil trabalhar de manhã, como hoje, por exemplo... ?
Z: Quando a gente lança um disco, então, é pior... Mas eu de fato adoro as manhãs. É o melhor momento para me conectar com a tranqüilidade, eu me sinto cheio de energia, cheio de esperança (rs)... cheio de vida, né?
D: Bom, vamos então ao seu disco, que eu escutei rapidamente; afinal, eu não podia chegar aqui sem pelo menos uma carta na manga não é !? Foi o Antônio Miguel, d´O Globo, quem me deu... Rapidinho: já que a primeira coisa que eu li diz “volume 1”, como sou perspicaz , suponho então que vá existir um “volume 2”!!; mas depois de ter lido os textos, eu não tenho outro “gancho”... ou eu passei ao largo...
Z.: Na realidade é apenas uma chamada de marketing; não há nada que aponte para algo que pode vir a remeter a esse “volume 1”. Você não viu o “release”?
D: Nem o release nem o disco! Eu fui abandonado... (rs), mas você vai me explicar...
Z.: é, é isso, eu quero te mostrar... e pra te responder à questão do “gancho”... Há nisso uma certa ironia, na verdade... todo mundo se pergunta do porque do “volume 1”, ainda mais quando o título é “O Coração do homem bomba”.
D.: Não é um álbun conceitual, então...
Z.: Não, na verdade o ponto de partida desse projeto é o resultado... Faz três anos que eu lancei meu último disco de inéditas, o “Baladas do Asfalto” (2005), que foi uma tentativa de fazer um pop mais assumido, FM, radiofônico... mais “friendly”, como diriam os americanos... e foi depois de apresentar o show sobre o conteúdo do disco ao longo de dois anos pelo Brasil todo, e assim... foi bom... E ao final de tudo isso, eu senti a necessidade de produzir um novo álbum de inéditas. Eu montei um estúdio para mim em São Paulo, bem pequeno, modesto... mas bom, com tudo que é preciso...e foi um projeto bem agradável, que me demandou menos pressão, e até me poupava de fazer a ponte aérea Rio-São Paulo a toda hora para estar com os músicos... o que me aborrecia um ponto quando fiz os discos anteriores. E agora, eu posso ficar uns cinco minutos no estúdio, sair pra tomar uma cerveja, ou um café numa padaria.
D.: Pra beijar o português......
Z.: Isso! (rs)... e então tudo começou a caminhar de maneira mais calma, o que pode ser percebido na fluidez do meu trabalho.
D.: ...sem pressão...
Z.: Sem pressão e ao mesmo tempo sem prazo. Já comecei a trabalhar em fevereiro desse ano várias bases para novas canções, algumas recentes mesmo, e outras antigas, recicladas; ou mesmo músicas de outros compositores... até que eu chegue a antever um álbum e uma linha de trabalho. Já trabalhei precisamente em 28 músicas, em 20 dias, e isso com o grupo que toca comigo e de quem sou parceiro há muito tempo... e algum convidado, vez por outra; e tudo de maneira calma, tranqüila... é um projeto do tipo caseiro... o co-produtor é o engenheiro de som que tem viajado junto com a gente todo esse tempo... a rigor, tudo acontece bem à vontade. E essa atmosfera me permite ser mais criativo, mais produtivo... e já eu se falou nisso... vamos produzir dois discos, não vamos ficar num só. E há canções tão boas...
D.: Você estará tão bem quanto neste?
Z.: (risos) eu não sei... eu gostei muito...
D.: Você não jogaria nada na lata de lixo?
Z.: Eu gostaria que não. E há mesmo músicas que devem ser expurgadas; senão elas viram uma coisa difícil de se esquecer; ficam ocupando um espaço na memória... é preciso livrar-se delas, para dar lugar a um trabalho novo, fresco...E então chegamos à origem da questão sobre fazer dois volumes. Certamente este aqui tem uma identidade mais rítmica, mais festiva; e o próximo será mais calmo, mais doce; e finalmente serão dois discos, com a mesma sonoridade de um mesmo grupo de músicos tocando juntos, mas sem que haja uma coisa conceitual, estudada, cerebral...
D.: ...É verdade que eu acho esse disco menos cerebral, mais leve que “Líricas”, por exemplo... Mas me desculpe que vou fazer a mesma pergunta que tudo mundo já fez, ou vai fazer... sobre o título ( “O Coração do Homem Bomba” ). Sorry!
Z.: Que nada, sem problema... eu me disponho a responder a qualquer pergunta (rs). O álbum abre com uma vinheta de poucos segundos... tum-tum, bum-bum (rs)... é um tipo de compasso para acalentar... de “acalanto”, “malambaia” ( cantigas de ninar para crianças ); e esse ritmo ficou na minha cabeça, e eu senti que esse timbre soava bem, e era provocador de uma certa maneira... aquilo podia sugerir várias definições... eu entrei em alguns blogs. Eu li que que eu promovia o terrorismo, coisas brutais – isso vindo dessas pessoas que só lêem as coisas literalmente. Mas trata-se de uma alegoria com a vida contemporânea. As bombas somos nós mesmos, à beira de uma iminente explosão; o que é uma idéia evidente, eu sei, não é uma teoria original... Mas se existe alguma coisa que pode fazer retardar o processo de explosão, essa coisa é a música... é a arte de uma forma geral, e a música popular mais especificamente. É que a música tem um aspecto assim, mais imediato, instantâneo. Ela tem um formato mais simples do que as artes plásticas, o teatro, o cinema... é um vetor mais democrático... uma música nos vem, assim, como se diz... como é bom... uma canção de Ray Conning... Jaques Brel ( rs). Existe uma certa onipresença da música popular... ninguém vive sem a música, jamais; mas muita gente pode viver sem teatro, cinema ou outras formas de arte...
D.: Conheço gente que não tem o menor interesse por música: meu pai, por exemplo; um grande amigo meu..., pra eles a música só serve como fundo sonoro.
Z.: Ah, é ? Mas peça a essas pessoas que puxem do fundo de suas memórias uma música... mesmo uma canção que cantavam pra elas quando ainda eram crianças...
D.: É verdade que meu pai escutou muito “The Platters”...
Z.: “The Platters”!!... “Only You”..(cantarolando)! ( rs ).
D.: Bom, deixemos meu pai quieto. Por que dois volumes, e não um álbum duplo?
Z.: Eu não gosto... acho muito indigesto... Mas dentro desse contexto, é fato que é uma experiência, essa de lançar dois volumes em três meses... Talvez não seja uma boa estratégia; é uma experiência... comercialmente muita gente acha que não vá funcionar... que os dois discos vão acabar se anulando; vão rivalizar entre si.
D.: Existe um bom exemplo, a partir da Marisa Monte, com os dois álbuns “Universo ao meu redor” e “Infinito particular”, que venderam bem, ambos...
Z.: ... mas os dela foram lançados ao mesmo tempo... E, claro, Marisa Monte basicamente é uma artista que vende muito bem... Vamos ver, pode ser uma boa experiência... eu já não trabalho mais tanto em função do mercado fonográfico.... eu já vendi muito bem, e meu primeiro álbum ganhou disco de ouro...
D.: Quais foram os seus melhores em vendas?
Z.: Os três primeiros: “Stephen Fry...”, “Vo´imbola” e “Líricas” – venderam em torno de 150.000...
D.: ... e não “Pet Shop mundo cão” ?
Z.: Não ... houve problemas com a falência do selo em pleno processo do lançamento... vendeu 60.000. “Palavras e Silêncio”, com o Fagner, foi igualmente disco de ouro, mas “Baladas do asfalto” teve também uma repercussão menos expressiva.
D.: Eu achei “Baladas do asfalto” mais difícil de atingir um público mais amplo: mais rock, mais blues...
Z.: Eu acho que isso se deu num contexto diferente. Os meus três primeiros discos foram lançados numa época de melhores condições de mercado; até mesmo a marisa Monte, que você usou como exemplo, não vende mais como nesses primeiros anos.
D.: Observe que Ana Carolina vendeu muito bem seu último álbum duplo “Dois Quartos”...
Z: Eu acho isso indigesto; eu não escuto um só disco de uma só vez... Eu preciso refletir sobre ele... Da mesma forma como 50.000 pessoas que irão comprar meus discos no Brasil, esse público vai assimilar isso dentro desses três meses ( três meses entre o volume 1 e o volume 2 ). A gente me pergunta: “Você não acha que é muito pouco tempo entre os dois... ?”. Não, esse projeto é para “agora”. Durante esses três meses, os que quiserem comprar irão comprar; os que quiserem conhecer, buscarão na internet. E assim, finalmente, mais importante para a divulgação do disco – mais do que a imprensa, mais do que as entrevistas, e todas as mídias... é o Show, esse que entra em cartaz agora ( 22.08.2008 ); e esse show vai começar a partir de capitais menos badaladas, como as do Norte do país, como Manaus, Belém... praças mais isoladas, onde os artistas não vão tão freqüentemente... é uma boa forma de se popularizar esse trabalho.
D.: E você planeja essa turnée para um ano?
Z.: Eu creio que sim...quando você vai fazer um show em Brasília, por exemplo, três meses mais tarde há uma expectativa pelo seu retorno. Em Portugal, por exemplo, já me conhecem, e tenho muitos amigos là; e eles lamentam freqüentemente que so faça uma turnée de três meses. Mas depois não há demanda. O mesmo acontece na Espanha, no Canadá... Aqui não; você vai a Curitiba, e você pode retornar ainda três ou quatro vezes mais tarde... Com a tournée “Baladas”, isso durou dois anos. Mas também porque o show evoluiu, e atingiu sua maturidade. Nessa turnée de agora, vai haver mais músicos, vai haver metais... para que o show reflita o disco, bem caloroso, ritmado...
D.: E o repertório inclui o conteúdo do “volume 2” que ainda vai ser lançado?
Z.:Não! Talvez uma ou dua músicas, e também aquelas que o público sempre pede.
D.: Para falar mesmo do disco, eu ainda não pude ouvir mais do que uma vez; e assim não posso dar uma opinião minha definitiva; mas eu o achei festivo, alegre, me lembrou aquela tournée que você fez há uns dois anos, que se chamava “O Baile do Baleiro”; estou certo?
Z.: Ah! Você viu o Bailé?
D.: Sim, e abria com um ritmo meio à la Emerson, Lake & Palmer... e eu pensei comigo mesmo: “olha só, o disco tem o mesmo clima do show...”.
Z.: É, o clima do disco foi muito influenciado pelo “Bailé”. Esse foi um projeto para se dançar, divertir-se, e de fato essa ambiência permaneceu a mesma no disco.
D.: Esse projeto do “Bailé” não foi além do Rio, onde eu assisti duas vezes?
Z.: Não, e a rigor, eu não o promovi além de São Paulo, a sua base. Durou lá. em São Paulo, um mês e meio, toda terça-feira, e foi um grande sucesso. São Paulo é bem receptiva a esse tipo de projeto. Com o tempo, ele cresceu, e me foi requisitado pelo Rio, por Belo Horizonte, Porto Alegre, Curitiba, etc... Mas era um projeto muito grande para ser levado em paralelo com outro, que era o que estava acontecendo. E eu coloquei ali toda a minha energia e não criei grande coisa. Agora eu devo me afastar. Eu disse a mim mesmo: “Eu vou me dedicar a trabalhar um disco novo e mais tarde eu vou resgatar esse projeto para fazer um dvd”.
D.: Era aí onde eu queria chegar...
Z.: É necessário que se grave esse dvd, por se tratar de um projeto muito visual.
D.: Todas as turnées da sua carreira foram imortalizadas por um suporte visual, com exceção do primeiro, correto?
Z.: Sim, eu acho que sou o artista que mais lançou dvd´s aqui no Brasil (rs).
D.: Em todo caso, é formidável para mim, que moro longe, saber que é possível através dos dvd´s assistir aos shows brasileiros mais importantes. E voltando ao disco, há um tema que recorrente, em pelo menos três canções, que é o retrato daquela mulher superficial, que você já tratou varias vezes, que tem a seu lado um pobre sujeito, um desgraçado, que diz não receber nada em troca, e que é abusado por ela...
Z.: (rs) E a minha mulher me disse: “Todo mundo vai pensar que eu sou assim!”
D.: Será que o pobre Zeca sofreu tanto assim em sua vida por causa das mulheres?
Z.: (rs) É muito mais interessante fazer músicas que falam de separações do que de um amor que funcione. Todas as canções de amor são canções de despedida, não?
D.:Sim, como a grande parte das músicas do Roberto Carlos... Nesse álbum aqui tem “Você é má”...
Z.: ...e “Ela falou, malandro”; essa é uma mulher terrível! Essa sim é uma mulher terrível! ( achando muita graça ). É um tema inerente à música popular; se você se lembrar de algumas composições de Cole Porter, Gershwing, Noel Rosa... tem lá essa mulher, essa megera mítica, essa bruxa; mas eu te juro que esse tipo não tem nada a ver com a minha mulher ... tadinha!...
D.: esse “tipo” é muito presente em Jacques Brel, justamente...
Z.: ...em Gainsbourg também... mas ela guarda também uma grande ironia...
D.: Já tinha trabalhado com o André Abujamara cuja canção “Alma não tem cor”, vocé retomou?
Z.: Nós nos apresentamos juntos em Cannes, no Middem, e foi a festa total! É uma figura! E essa canção surgiu no repertório dos meus shows em 2006. E todo mundo acha que é uma composição tipicamente minha...
D.: Em todo caso, ela se encaixa pefeitamente no espírito do disco.
Z.: Absolutamente, e ela é muito alegre, a garotada pede em todos os shows. Ela ficou tão incorporada ao show que eu decidi incluí-la no álbum. Era o momento; ela tem uma função despretenciosa, fluida...
D.: E uma vez seguindo o fio condutor do disco, há dois títulos bem “Baleirista” que são “Madureira” e “Elas por elas”... essa prática de composição que você tem de misturar as expressões tipicamente inglesas, francesas, é uma coisa muito sua...
Z.: É, eu gosto disso; é como a expressão “mise-en-scène”, que eu escrevi à brasileira, é mesmo intencional... você não vai encontrar no dicionário, mas é um mote já tão incorporado à linguagem cotidiana... mas não à escrita. Eu me permito escrevê-lo à brasileira.
D.: E essa mistura de motes estrangeiros... os brasileiros entendem?
Z.: Eu penso que sim, mas evidentemente essas “piscadas de olho” musicais mais sutis não aparecem para além da música popular – são os “trava-língua” ( jogos de palavras ). E agora para o show, eu coloquei uma canção de dois “emboladores” nordestinos que se chama “ O Coco do trava-lingua”. E eu mesmo não sei como é que eu vou interpretá-la, eu não sei nem ainda de cor as palavras. Poderia ter sido composta até por um poeta concretista como Augusto de campos, salvo o fato dela ter sido composta por analfabetos.
D.: Mas não é para ser cantada a dois?
Z.: Não! Enfim, deveria, sim, ser cantada a dois – uma “embolada” se canta a dois, por definição, ..é um desafio; mas eu vou cantá-la sozinho. Não sei como..(rs)
D.: Você agregou uma outra vinheta, composta com o Chico César, “Aquela prainha”...
Z.: Nada de pessoal contra os gringos, sabe (rs)! A letra é do Chico, e talvez não faça diferença se fala daquela praia do Ceará ou de qualquer outro recanto que os seus amigos europeus compraram... Por um lado é bom, mas por outro eles dominam a arte de devastar esses belos recantos... enfim, às vezes se instala um tipo de convivência com uma certa consciência do meio-ambiente; mas, claro, há uma piscadela de olho meio irônica sobre tudo isso...
D.: Ainda nesse álbum, encontramos músicas que seriam mais um exercício de estilo do que propriamente voltadas para algum “conteúdo”?
Z.: Vez por outra, sim; é só isso, mais um exercício verbal, como em “Nega, neguinha” ou mesmo “Elas por elas”...
D.: Parece que às vezes o que vale é rimar a qualquer preço... no fundo, você jamais pensou em escrever a poesia sem a música...
Z.: Sim, já; mas eu nunca publiquei, e nem sei se publicaria um dia.
D.: Mas tratam-se de textos ou de poesias... ?
Z.: É poesia; eu comecei a escrever a partir da inspiração poética; e depois, enveredado pelo caminho da música, eu fui abandonando... Agora, eu eventualmente exercito meu texto como cronista, a pedido da revista “Isto é”. Eles me convidaram a participar mensalmente.
D.: ... com o objetivo de ...
Z.: Com nenhum objetivo ao certo... Diversificar.
D.: “A Crônica do Baleiro”...
Z.: Poi é; há quatro cronistas que se revezam a cada semana... e dentro do meu site eu já venho escrevendo um pouco também. É um espaço onde compilo alguns de meus textos... Mas eu não me sinto investido de qualquer tipo de “missão literária”... hoje em dia pouco importa se escrever um livro... isso festá banalizado.
D.: Bom, mas quando você faz uso do efeito desses textos “diferentes”, nem que apenas para jogar com com o som desses motes, você o faz sobre uma melodia já composta?
Z.: Não, geralmente elas caminham justas – letra e melodia – e o tratamento desses motes é conduzido pelo ritmo deles mesmos.
D.: Mas tem algo de muito nordestino nessa forma de compor...
Z.: Completamente; os repentistas, os emboladores, fazem um tipo de arte popular que eu admiro muito.
D.: Você também nutre uma certa admiração por certos autores obscuros; pouco conhecidos ou “malditos”, como Luiz Ayrão, que consta do seu álbum. Quem é ele?
Z.: Luiz é um compositor que começou com canções para o Roberto Carlos nos anos sessenta. Ele fez sucesso através de duas canções que Roberto cantava e que as pessoas não sabiam quem era o autor... Uma é “Ciúme de você” ( cantando "... mas é ciúme, ciúme de você, ciúme de você..." ) e a outra... é uma música que a Vanessa da Mata gravou... “Nossa canção” ( "Ei, preste atenção... essa é a nossa canção... vou cantá-la seja onde for..." ) . Bom, é dele, é ele é um craque! E dali, para os anos setenta, ele se tornou sambista e começou a lançar discos de samba. Um tipo de samba que o público apelidou pejorativamente de “samba jóia”, no estilo do Benito di Paula, Originais do samba. Eu adoro esse tipo de música. É muito popular, na cabeça das paradas de sucessos.
D.: Do tipo “cafona”, como se diz aqui?
Z.: Sim, mas com o passar do tempo, elas são ouvidas dissociadas daquele tempo...
D.: “Cafona” ou “brega”, qual a diferença pra você... ?
Z.: Ah, por assim dizer, é a mesma coisa ... (rs)...mas eu adoro... Como Odair José; mas o Brasil é desse jeito: a gente gosta em segredo, mas não gosta de confessar. É como com os filmes do Almodóvar, com todo aquele “kitch” espanhol, eu acho que é o máximo! Mas no Brasil, ele é esnobado... Pode parecer coisa de liquidação, mas esses cantores têm um valor cultural real. Eu gosto muito de beber dessa fonte dos anos setenta. Essa canção do Luiz Ayrão é de 74... e já se vão 34 anos... parece uma eternidade. Um jovem fã que veio ao meu show, nunca tinha ouvido falar dele. Mas se ele for curioso, ele vai revisitar a obra desse compositor, e vai descobrir coisas fantásticas.
D.: A propósito, me lembro de ter visto alguns cartazes do Luiz Ayrão pela cidade...
Z.: É possível... ele tem mais de sessenta anos hoje, e é jurado de um programa de calouros, muito popular...
D.: Um outro personagem da música brasileira, bem diferente, que não é conhecido na Europa, que é o Ségio Sampaio...
Z.: ... nem no Brasil!
D.: Eu tenho a impressão de que ele é um artista meio ‘cult’, é isso mesmo?
Z.: O Sérgio tem uma história muito curiosa. Eu o conheci quando eu ainda era moleque. Os meus irmãos tocavam violão, e eles eram um pouco mais velhos... e levaram o primeiro disco do Sérgio lá pra casa. E fez um sucesso popular extraordinário em 72, 73. Um título que era “Eu quero botar meu bloco na rua”. Era um verdadeiro hino na época da ditadura. Um tipo de canção rebelde que as pessoas cantavam nas ruas, e que vendeu 500.000 exemplares... de compacto simples, sabe... Só um Roberto Carlos podia chegar a um número desses. E a partir daí ele não fez mais nada, nem mesmo quis fazer; você sabe: fazendo o tipo “marginal”... Ele não fez mais qualquer sucesso, e sua carreira desabou dentro de um certo ostracismo... Ele caiu no esquecimento com apenas três discos... O último que ele lançou vai ser relançado com o meu selo, “Saravá Discos”, remasterizado. O Sampaio morreu em 1994, ainda muito jovem, com 47 anos. Ele era “junky”...
D.: Morto jovem e “junky”, tudo para virar cult...!
Z.: Pois é, e em 1997, eu participei de uma homenagem que fizeram a ele que se chamou “Balão de Sampaio”, e foi através dessa homenagem que me tornei amigo de seu filho e de sua ex-mulher, duas pessoas adoráveis dos quais sou amigo íntimo. E ela me deu, logo depois daquela ocasião, uma fita k7 demo com diversas canções de Sampaio. Havia a intenção de lançar o primeiro “CD” de sua carreira; mas ele morreu no ano seguinte de uma pancreatite crônica que ele tinha desde a sua juventude. Enfim, uma história breve e trágica, que o colocou nesse panteon cult, mítico, dos artistas “marginais”. Histórias que as pessoas adoram, evidentemente... quando estão vivos ninguém lhes estender a mão, mas depois todos passam a adorar... O Sérgio Sampaio, foi uma referência muito forte para mim, e então eu relanço esse álbum que se chama “Cruel”, e eu estive sempre associado a ele... muita gente o conheceu através de mim... ele estava completamente esquecido pelas pessoas, mesmo pelos próprios fãs.
D.: Eu mesmo o conheci através desse disco-homenagem de 1997, e essa música famosa, “Eu quero botar meu bloco na rua”...
Z.: Uma canção envolvente; eu já cantaria “Tem que acontecer”...
D.: Voltando ao seu novo álbum, eu saquei um truque... o título “Você é má”; eu acho que já tinha ouvido esta canção...
Z.: Um programador de rádio me disse a mesma coisa ontem ( rs). Parece um tipo de canção familiar, a não ser que eu tenha plagiado a mim mesmo, inconscientemente (rs). As pessoas já a cantam em coro comigo... e eu não a canto há mais de uma semana. Já é um hit. Eu vou fazer uma enquete (rs) pra saber se eu me plagiei.... !!
D.: Já tem algum título que toca nas rádios, um single que, como se diz, “puxa” o álbum?
Z.: Na verdade, essa forma de funcionamento não acontece ainda muito aqui no Brasil. No Rio, a gente tem duas rádios importantes que tocam MPB: a JB FM e a MPB FM. A JB escolheu “Você é má”, e a MPB FM ainda não encontrou uma música adequada, ainda está à procura... Sobre o álbum, não tem muitas canções no “formato rádio”. No ‘volume 2’, já vai ter mais...
D.: O mais engraçado no “Coração”, talvez sejam as vinhetas, aquela do Beethoven...
Z.: (rs) Essa é engraçada... Talvez seja “paulistana” demais!. Na verdade é uma referência aos caras que vendiam gaz em São Paulo, de porta em porta, o caminhão deles tocava “Pour Elise”, de Beethoven; é muito característico... mas isso tem uns 15, 20 anos... quando o caminhão deles passava, a gente ouvia Beethoven através daquele som horrível...desafinado.
D.: Eu não acho que todo mundo vá entender (rs).
Z.: Não vai, não; mas eu acho ela divertida (rs).
D.: A mesma coisa com relação a “Nega, neguinha”; você faz muitas referências ao Candomblé... eu me pergunto se todo mundo aqui compreende esse olhar multicultural...
Z.: É sobretudo um jogo com os motes mais uma vez, um gracejo verbal , como eu chamo, sobre a “bahianidade”, a “africanidade”... todas essas coisas que são ditas sem sequer saber do que se trata verdadeiramente....
D.: Ok, e a gente termina falando sobre o título que fecha o teu álbum, essa carta ao Geraldo Vandré... eu me lembro de ter lido n´O Globo, uns meses atras sobre um leitor que se perguntava onde ele ficava, o que acontecia com ele...a canção vem desse fato?
Z.: É uma figura muito enigmática da nossa música um tipo de esfinge... ninguém sabe ao certo se ele foi torturado pelo regime militar, ou se sumiu por motivo fútil... mas ninguém sabe de verdade. Dizem que ele é visto freqüentemente em Teresópolis, barbudo, e que mora entre lá e São Paulo... Ele se tornou meio eremita... é uma figura curiosa que eu sempre achei enigmática. E o Chico Cesar, com quem eu não compunha desde muito tempo, me enviou uns esboços de textos cujo um sobre ele que achei fantastico... fazia alusão também àquela marcha da qual ele participou nos anos 60, contra a guitarra elétrica na MPB. É um episódio célebre dentro da época do Tropicalismo, com aquele antagonismo entre as figuras tradicionais da MPB e aqueles músicos cabeludos que queriam mudar a situação – a época dos “Mutantes”. É uma das reivindicações mais estranhas da história da nossa música. Até o Gil, eu acho que participou...
D.: Gil? Mas ele usava guitarra elétrica na época! Os Mutantes eram atras dele...
Z.: Sim, mas era mais para efeito das manifestações; e havia também o Edu Lobo; enfim, era uma época de confusão ( 1966-67 ). Mas tem uma coisa engraçada: de uma certa maneira, essa marcha deu resultado. Agora todo mundo quer lançar um disco acústico. Não por ideologia, mas por tendência do mercado ( rs). Todo mundo quer lançar seu “Unplugged”; é muito doido! E eu fiz essa música meio bossa... Mesmo que o Geraldo nunca tivesse feito Bossa Nova... mas aquilo tinha a ver com aquela batalha absurda e nacionalista.
D.: E a carreira dele, durou até quando?
Z.: A carreira dele foi muito curta, eu acho que depois disso, ele não fez mais nada; Mas ele tinha uma canção super boa: “Fica mal com deus”, que é a minha favorita. Ele fez belas músicas; mas ele é mais conhecido por aquela “caminhando cantando...” o hino contra a ditadura, que até Charlie Brown Jr. trouxe à cena. “Pra não dizer que não falei de flores”.
D: Ah é ? Mas você retomou Charlie Brown Jr, então...nada me surpreende mais...
Z: (rs) pois é... enfim, em 1978, relançaram um compacto duplo 45 com “Pra não dizer” e “Fica mal com deus”; e foi um sucesso. Mais tarde a Simone relançou também e foi um grande sucesso popular... Acho que ele esta vivendo de direitos autorais, porque essa música ainda toca constantemente no rádio ou em shows.
D.: De volta ao seu disco, “Toca Raul”, já estava disponível...
Z.: Sim, através do meu site, desde dezembro de 2007...
D.: Você a regravou para o disco?
Z.: Não, eu só remixei... Dentro de todo show pop, tem sempre um entusiasta que te pede pra tocar alguma música que ele gosta, mesmo de um outro artista... No início é só isso; mas depois, vira uma “onda” entre os amigos.
D.: Bom, e agora vai virar um pesadelo, que esse titulo vai levar...
Z.: (rs) sim, eu criei um monstro!
D.: Antigamente, a gente gritava para que você tocava “Lenha”. Eu li que você não gosta tanto de “Lenha” ( hit do segundo álbum ).
Z.: Não, tem muita gente que fala isso, mas não é assim. Eu tenho consciência que essa não é uma canção “menor” do meu trabalho... É o meu maior sucesso popular. É uma canção tão simples em sua concepção que ela toca um grande número de pessoas... mas evidentemente eu não quero cantá-la pelo resto da minha vida.
D.: Pode ser uma canção “brega”...
Z.: ..é, e uma dupla sertaneja retomou “Lenha”; imagina! Mas é bom...Tudo mudo pensa que a canção é deles (rs)
D.: Bom, Antes de terminar, já que eu vou receber de graça os discos do seu selo “Saravá” (rs), você pode adiantar alguma coisa?
Z.: Sim, e agora estão saindo duas novas trilhas sonoras, ligadas a espetáculos de dança cuja "Geraldas e avengas" e também o primeiro disco do Tiago Araripe, um cantor do Ceará, que participou de maneira mais periférica da vanguarda de São Paulo; tem um álbum de Lopes Bogéa, e do Antonio Vieira, que é um sambista de 87 anos; esses são os pricipais projetos realizados...
D.: Eu adorei o disco de Lopes Bogéa... mas não são álbuns pra se ganhar dinheiro...
Z.: (rs) De jeito nenhum; eu gasto mais do que ganho... É esse o impasse do selo nesse momento. É um luxo... um luxo que me custa caro! (rs). Há que se reorganizar para viabilizar isso... Você tem razão; são bons projetos, eu gosto desses “produtos”, mas não é muito viável comercialmente... Porém o disco da Hilda Hirst vendeu até agora 5.000 cópias.
D.: É sua contribuição à cultura, um pouco elitista, talvez..?
Z.: Sim, mas também é importante.... e agora eu produzo um cantor angolano, que se chama Filipe Mukenga, que é um artista muito interessante também; ele já trabalhou para Flora Purim, Djavan, e que ficou muito tempo sem gravar. Nós nos reencontramos em Cabo Verde, ficamos amigos e eu propus a ele produzir um álbum... esse será o último dessa fase do selo; em seguida vamospensar seriamente em reestruturar a parceria para obter obter uma melhor distribuição... Deve acontecer por volta de outubro.
Desde a entrevista, o Zeca continua sua turnée, e eperamos aquele "volume 2". Quem quiser conferir, "Débora", "Tacape", "E como diria Odaïr" estao disponivel no site oficial do cantor...
"Toca Raul"
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