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mercredi 30 décembre 2009

Albums 2009 : mes 10 favoris (+10 !)


(texte français, texto português traduzido do francês)

Ces derniers jours au Brésil, sur tous les blogs, dans tous les journaux, il pleut les fameuses listes des 10 meilleurs en tout genre…
D’autres, très courageux, se sont même lancés dans le périlleux choix des CD’S de la décennie comme le blog MPB Player du Globo ou Lacumbaca, en lien tous les deux sur la colonne de droite.
Comme l’année dernière, ce blog adoré ne restera pas à la traîne.
Comme pour chacun, il ne s’agit que modestement de mes 10 (en réalité 20 !) albums favoris, en tenant compte des difficultés que je peux rencontrer –par rapport à mes illustres collègues brésiliens- à avoir accès à toutes les sorties, et principalement les albums indépendants.
En attendant, les posts « Survolant 2009 », mois par mois, continue pour se terminer le 15 janvier…

Nesses últimos dias no Brasil, em todos os blogs e jornais, chovem as famosas listas dos 10 melhores de todos os gêneros... Alguns, muito corajosos, chegam a se lançar na perigosa escolha dos CD’S da década, como o blog MPB Player, d´O Globo, e Lacumbaca, constando aqui os links para ambos na coluna à direita.
Como no ano passado, esse blog adorado não vai ficar na retaguarda. E como todo mundo, eu apresento modestamente meus 10 (na realidade 20 !) álbuns favoritos, levando em conta as dificuldades que eu possa ter encontrado –em relação a meus ilustres colegas brasileiros- em ter tido acesso a todos os lançamentos, principalmente os dos álbuns independentes.
Nesse ínterim, os posts « Sobrevoando 2009 », mês a mês, continuam até concluir a série em torno de 15 de janeiro...

Mes 10…/ Meus 10...

CÉU : « Vagarosa »
LULA QUEIROGA : « Tem juízo mas não usa »
RODRIGO CAMPOS : « São Mateus nao é um lugar assim tão longe »
FRED MARTINS : « Guanabara »
MARCOS VALLE & CELSO FONSECA : « Página central »
NANDO REIS : « Drês »
VERÔNICA FERRIANI : « Verônica Ferriani »
ED MOTTA : « Piquenique »
RODRIGO BITTENCOURT: « Mordida»
LUCA SANTTANA : « Sem nostalgia »


Et + 10/ E + 10

MARIANA AYDAR :
« Peixes, p
ássaros, pessoas »
ZÉLIA DUNCAN : « Pelo sabor do gesto »
MARIA GADÚ : « Maria Gadú »
ROMULO FROES : « O Chão sem o chão »
CRIS AFLALO : « Tudo que respira quer comer »
ROSA EMILIA : « Álbum de retratos »
IIESI : « Brigador »
NANA CAYMMI : « Sem poupar coração »
VANDER LEE : « Faro »
ALCEU VALENÇA : « Ciranda mourisca »

vendredi 24 avril 2009

En écoute aujourd’hui : Verônica Ferriani et Cris Aflalo.

Verônica Ferriani, jongle avec les styles (photo divulgation)

(texto português em baixo)

S’il vous prend la curiosité de taper « Verônica Ferriani » sur votre clavier en recherche Youtube, vous tomberez sur une trentaine de vidéos à visionner. C’est dire si cette jeune chanteuse de São Paulo à déjà du métier. Vous la verrez chantant Alguem me avisou de Dona Ivone Lara, filmée dans sa chambre par ses parents quand elle avait 9 ans, jusqu’à sa participation pour le programme « Som Brasil » consacré à l’œuvre de grand Ivan Lins. Pour ce programme, Verônica réussissait l’exploit de nous rendre attentifs à des titres mille fois rabachés comme Me deixe em paz, Dinorah, Dinorah, ou Cartomante. Un défi encore plus ardu que ces titres résonnent dans nos têtes aux travers des interprétations d’Elis Regina.

Cette analyse s’adapte parfaitement au premier album que la chanteuse vient de lancer début de cette année 2009. C’est avec crédibilité et brio qu’elle aborde les répertoire de maître comme Paulinho da Viola (avec le peu connu Perder ou ganhar) ou Assis Valente (1911-1958), passant donc de la samba au frêvo (Na volta da lateral), ou de la soul (Eu amo você de Cassiano et Silvio Rochael) à la Bossa jazz (If you want to be a lover). Dix titres qui acquièrent une uniformité grâce à la voix très rodée de Verônica, tantôt veloutée et jazzy, tantôt plus affirmée et incisive comme dans le guerrier Um sorriso nos labios (Gonzaguinha) ou le juvénile Com mais de trinta anos (Marcos e Paulo Sérgio Valle). L’excellent travail de Marcelo Maita au clavier contribue lui aussi au répertoire de l’album agréablement éclectique. Maintenant que l’on sait que Verônica Ferriani possède une faculté d’adaptation remarquable à différents styles, il n’y a plus qu’à espérer qu’elle se mette à la disposition de compositeurs moins connus à la recherche de talents comme le sien…Un projet avec Chico Saraiva et Mauro Aguiar est d’ailleurs en chantier et devrait sortir cette année. Mais d’ores et déjà, ce « Verônica Ferriani » est écouté et approuvé !

Cris Aflalo, du Céara à São Paulo (Photo Gal Oppido)

Dans un autre genre, le travail de Cris Aflalo prend un chemin inverse à celui de Verônica Ferriani.
En 2003, cette autre chanteuse de São Paulo lançait « Só Xerêm », son premier album dédié aux compositions de son grand père, Xerêm, de son vrai nom Pedro de Alcântara filho (1911-1982). Un disque délicieux qui nous plongeait aux racines de ce chanteur/ compositeur de Fortaleza (Céara, nordeste du Brésil). « Só Xerêm » avait connu un beau succès d’estime, et fut cette année-là cité parmi les meilleurs albums de musiques « régionales » (aie, ce mot… !). Très sincèrement, je pensais qu’une fois cet hommage accompli, Cris Aflalo se serait ranger de la scène. Que nenni ! Elle délaisse ses chaussures à cordelettes pour chausser des hauts talons et un ensemble très classe à l’image de la très élégante pochette et de son répertoire très soigné.

Celui-ci se divise entre des compositeurs appartenant à la scène de São Paulo -Carlos Careqa, Arnaldo Antunes, Paulo Tatit- ou d’autre plus connus comme Lula Queiroga (encore lui !), Caetano Veloso, Gilberto Gil, quoique ces derniers avec des titres assez recherchés…Mais Cris n’hésite pas à se lancer au milieux de ces tenors en imposant quatre compositions personnelles qui ne souffrent pas de la comparaison et ne détruise en rien l’homogénéité de « Quase tudo dá », sorti en février 2009. La voix gracieuse et affinée de la chanteuse survole les arrangements délicats dont s’occupe Luiz Waack, qui est aussi à la production. Il allie touches électroniques aux percussions et autres éléments acoustiques dont ses belles interventions aux différentes guitares. L’ensemble se révèle recherché, raffiné et léger ; moderne mais à la fois avec ce quelque chose d’ancestral qui caractérisait son premier travail. Très bel album, et bien belle chanteuse…

Quelques unes de la nouvelles scène de São Paulo: Cris Aflalo, Giana Viscardi et Verônica Ferriani
(avec Caê Rolfsen et Zé Renato)


P.S : Avec Cris Aflalo, Verônica Ferriani, Mariana Aydar, Fabiana Cozza, Giana Viscardi, Bruna Caram, Glaucia Nasser et j’en oublie, São Paulo semble un vivier très sérieux quant aux chanteuses d’aujourd’hui et de demain. Que les autres capitales brésiliennes se le disent !

Verônica Ferriani : « Verônica Ferriani » (Independente)
Cris Aflalo : « Só Xerêm » (2003-Tratore)
« Quase tudo dá » (Tratore)

(texto traduzido do francês, destinado aos leitores aprendizes)

Escutando hoje : Verônica Ferriani e Cris Aflalo

Se vocês tiverem a curiosidade de teclar Verônica Ferriani em seu PC, fazendo uma busca no Youtube, vão encontar uns trinta vídeos para apreciar. Pode-se dizer que essa jovem cantora de São Paulo já é do métier. Vocês a verão cantando Alguém me avisou, de Dona Ivone Lara, filmada em seu quarto por seus pais quando tinha 9 anos, até sua participaçao em 2007 no programa « Som Brasil », dedicado à obra do grande Ivan Lins. Nesse programa, Verônica até obteve bom êxito ao prender nossa atenção com títulos já ouvidos à exaustão, como Me deixe em paz, Dinorah, Dinorah, ou Cartomante. Um desafio ainda mais árduo pelo fato dessas canções ecoarem em nossas mentes através da voz de Elis Regina.
Essa análise se adapta perfeitamente ao primeiro álbum que a cantora acaba de lançar em fevereiro deste ano. É com credibilidade e brio que ela abraça um repertório de mestres como Paulinho da Viola (com a pouco conhecida Perder ou ganhar ) e Assis Valente (1911-1958), passando então do samba ao frevo (Na volta da lateral) ; ou do soul (Eu amo você, de Cassiano e Silvio Rochael) à Bossa jazz (If you want to be a lover). Dez títulos que adquirem uma uniformidade, graças à voz bem redonda de Verônica, às vezes aveludada e « jazzy », outras vezes mais firme e incisiva como na marcial Um sorriso nos lábios (Gonzaguinha) e a juvenil e ritmada Com mais de trinta anos (Marcos e Paulo Sérgio Valle). O excelente trabalho de Marcelo Maita nos teclados (rhodes e organ) contibui também para o som homogêneo desse álbum agradavelmente eclético. Agora que é sabido que Verônica Ferriani possui uma capacidade de adaptação impressionante a diferentes estilos, é so esperar que ela se coloque à disposiçao de novos compositores que buscam intérpretes talentosas como ela. Aliás, um projeto com Chico Saraiva e Mauro Aguiar já está em preparação para este ano ainda.
Mas por aqui e agora, é « Verônica Ferriani » a ouvida e aprovada !

Fazendo um outro gênero, o trabalho de Cris Aflalo toma um caminho inverso àquele de Verônica Ferriani. Em 2003, essa outra cantora de São Paulo lançou « Só Xerêm », seu primeiro álbum, obra dedicada exclusivamente às composições de seu avô, Xerêm, cujo verdadeiro nome é Pedro de Alcântara filho (1911-1982). Um disco delicioso, que nos fazia mergulhar às raízes desse cantor / compositor de Fortaleza (CE). « Só Xerêm » foi destacado na imprensa musical, e foi naquele ano citado entre os melhores álbuns « regionais » (ai, esse rótulo… !). Muito sinceramente, eu pensei que uma vez cumprida essa homenagem, Cris Aflalo se retiraria de cena. Que nada ! Ela tirou suas sandálias de couro para calçar saltos altos e vestiu roupas sociais de classe à altura de uma elegante caixa contendo um repertório muito bem caprichado. Nele enxergamos compositores da cena indie paulistana - Carlos Careqa, Arnaldo Antunes, Paulo Tatit - ou alguns outros mais conhecidos como Lula Queiroga (ainda ele !) Caetano Veloso, Gilberto Gil ; sendo que esses últimos com canções menos batidas (Um tom ou Língua do pê). Mas Cris não hesita em se lançar ao âmago de seus dons ao expor quatro composições pessoais que não comprometem em nada a homogeneidade de « Quase tudo dá », seu segundo álbum que saiu em fevereiro de 2009. A voz graciosa e afinada da cantora sobrevoa os arranjos delicados a cargo de Luiz Waack, bem com a produção. Ele alia toques eletrônicos às percussões e outros elementos acústicos, dentre os quais alumas belas intervenções de diferentes violões. O conjunto da obra nos parece renovado e refinado; contemporâneo, porém atrelado a qualquer coisa de ancestral que caracterizava seu primeiro trabalho. Um belo disco, de uma igualmente bela cantora...

P.S : Junto com Cris Aflalo, Verônica Ferriani, Maria Rita, Mariana Aydar, Fabiana Cozza, Giana Viscardi, Bruna Caram, Glaucia Nasser e algumas outras que eu possa esquecer, São Paulo parece hoje um viveiro bastante sério de jovens cantoras, tanto de hoje quanto de amanhã. Que as outras capitais basileiras que o digam !

Verônica Ferriani : « Verônica Ferriani » (Independente)
Cris Aflalo : « Só Xerêm » (2003-Tratore)
« Quase tudo dá » (Tratore)





mardi 21 avril 2009

Petite étude comparée : Lula Queiroga et Lenine.

Lula Queiroga...plus intellectuel (photo divulgation)

(texto português em baixo)


C’est en 1997 que j’ai pris connaissance pour la première fois du nom de Lula Queiroga sur l’album « O Dia em que faremos contato » de Lenine, un disque qui avait bousculé certaines de mes certitudes musicales.

Lula Queiroga apparaissait aux crédits de plusieurs titres. Parmi ceux-ci, le rageur Dois olhos negros dont il était l’unique auteur, un rock viscéral et tribal à la ligne mélodique tortueuse, délivré sans concession par Lenine.
Par la suite, en cherchant bien, je retrouvais « Baque solto » (1983), premier essais discographique signé par les deux compères qui ne présageait en rien du son qu’ils allaient nous livrer par la suite.
Lenine connut une reconnaissance nationale et internationale vers la fin des années 90, tandis que Lula Queiroga, se cantonnait à une carrière plus discrète, surtout dédié à la composition pour autrui. Il lança cependant les très estimés « Aboiando a vaca mecânica » (2001) et « Azul Invisivel vermelho cruel » (2004), disques que je n’ai jamais eu la chance d’avoir entre les mains. Cependant certains des titres inclus dans ces albums –et d’autres de ses compositions- se retrouvèrent aux répertoires de Ney Matogrosso, Zizi Possi, Elba Ramalho, Zélia Duncan, Virginia Rosa, Paula Morelenbaum, et bien d’autres.
Plus récemment, ce furent Belo estranho dia de amanhã sur le dernier album de Roberta Sá (2007) et Tem juizo mas não usa , la meilleure plage de « Ponto enredo » (2008) de Pedro Luis e a Parede, qui attirèrent mon attention. Je fus surpris de voir que ces deux titres –parmi les plus joués sur Tropicália- étaient issus du même esprit créateur. L’une une bossa délicate, l’autre une samba rock vénéneuse et irrésistible. Elles sont d’ailleurs inclues dans des versions quelque peu distinctes sur le nouvel album de Lula Queiroga, "Tem juizo mas não usa", du même titre composé avec Pedro Luis.

Lenine...plus 'animal' (photo Daniel A.)

Bien sûr, Lenine et Lula Queiroga ont bu aux mêmes sources sonores : le rock, l’électro, l’afrocyber culture de Chico Science et à l’héritage ancestral du Pernambuco. Cependant les deux artistes ont des personnalités bien différentes. Physiquement, sur scène ou vocalement, Lenine possède cette attitude primale, et une sauvagerie instinctive qui ne sont pas le propre de Queiroga, artiste à la posture plus intellectuelle. D’où une projection médiatique visuelle plus évidente pour Lenine.
Mais Lula possède en main une palette harmonique bien plus riche en termes de composition, ainsi qu’une volonté constante de recherche quant à l’instrumentation. Pour résumé, je dirais que Lula Queiroga aurait pu composer chacun des titres de Lenine, mais que l’inverse est peu probable. Lenine est un troubadour moderne, un interprète sans égale, maître de sa guitare percussive et des atmosphères musicales qu’il veut installer. Qu’elles soient angoissantes, orageuses ou parfois méditatives.
Il reste tout simplement plus rock que son « gémeaux » de Recife.

De son côté, Lula Queiroga est un inventeur de sons contemporains, un expérimentateur, pas très éloigné parfois de certains avant-guardistes de São Paulo (je pense à André Abujamra, à Itamar Assumpção pour certaines lignes mélodiques saccadées, voire à Arnaldo Antunes dans ses intonations). C’est ce mélange peu définissable, qui emprunte à une multitude d’influences passionantes, que Lula Queiroga nous offre dans « Tem juizo mas não usa ». À chaque écoute, il nous livre de nouvelles surprises aux entournures de chaque ligne mélodique. Il est trop tôt pour dire si l’album sera une des meilleures productions de l’année, mais il sera difficile de faire plus contemporain.

LULA QUEIROGA: « Tem juizo mas não usa » (Luni prod.)

(texto português traduzido do francês, destinado aos leitores aprendizes)

Pequeno estudo comparado : Lula Queiroga e Lenine.

Foi em 1997 que eu tomei conhecimento pela primeira vez do nome de Lula Queiroga, através do álbum « O Dia em que faremos contato », de Lenine ; um disco que veio balançar algumas de minhas certezas musicais. Um verdadeiro choque…
Lula Queiroga aparecia nos créditos de diversas faixas. Dentre algumas, Dois olhos negros , do qual ele é o único autor : um rock visceral e tribal, de linha melódica tortuosa, executado sem concessões por Lenine.
Na sequência, procurando bem, eu reencontrei « Baque solto » (1983), primeiro ensaio discográfico assinado pelos dois amigos de longa data, que ainda não nos mostrava o som com o qual eles iriam nos invadir, 10 anos depois.
Lenine é senhor de um reconhecimento nacional e internacional desde o final dos anos 90, enquanto que Lula Queiroga encastelou-se numa carreira mais discreta, dedicada sobretudo à composição para terceiros. Mas ele lançou, em paralelo, os apreciados « Aboiando a vaca mecânica » (2001) e « Azul Invisivel vermelho cruel » (2004), discos que eu jamais tive a oportunidade de ter em mãos. Porém, alguns títulos constantes desses álbuns - além de outras de suas composições – nos trazem de volta aos repertórios de Ney Matogrosso, Zizi Possi, Elba Ramalho, Zélia Duncan, Virginia Rosa, Paula Morelenbaum, além de outros.
Mais recentemente, foram Belo estranho dia de amanhã, do mais recente álbum de Roberta Sá (2007) ; e Tem juizo mas não usa (Lula Queiroga/ Pedro Luis), a melhor faixa de « Ponto enredo » (2008), de Pedro Luis e a Parede, que me chamaram a atenção. Eu me surpreendi ao verificar que esses dois títulos – dentre os mais tocados no Tropicália – são resultado do mesmo espírito criativo. O primeiro é uma bossa delicada ; o outro um samba-rock « envenenado » e irresistível. Essas faixas estão também inclusas, sob versões um pouco diferentes, dentro de « Tem juizo mas não usa », terceiro disco de Lula, que acabou de sair.
Na verdade, Lenine e Lula Queiroga beberam das mesmas fontes sonoras : do rock, do eletro, da cultura afrocyber do Mangue Beat, e da herança ancestral de Pernambuco. Não obstante, os dois artistas têm personalidades bem diferentes. Fisicamente, em cena ou vocalmente, Lenine é dono de uma atitute primal e de uma selvageria instintivas, que não são próprias de Queiroga - artista de postura mais intelectual. Daí uma projeção midiática visual mais evidente para Lenine.
Mas Lula tem nas mãos uma paleta harmônica bem mais rica em termos de composições, bem como um impulso constante de proceder à pesquisa instrumental. Em resumo, eu diria que Lula Queiroga poderia ter composto qualquer título de Lenine, mas o inverso é pouco provável. Lenine é um trovador moderno, um intérprete sem igual ; mestre de sua guitarra percussiva e das atmosferas musicais que ele pretende criar. Quer elas soem angustiantes, tempestuosas, ou por vezes meditativas.
Resta-lhe simplesmente mais rock do que seu « gêmeo » de Recife.
Por seu lado, Lula Queiroga é um inventor de sons contemporâneos, um experimentador, não tão distante assim de certos vanguardistas de São Paulo (eu penso em André Abujamra ou Itamar Assumpção para certas linhas melódicas mais bruscas, à maneira de Arnaldo Antunes em suas entonações), ou em Portugal, Pedro Abrunhosa. É essa mistura, meio indefinida, que conduz a uma multiplicidade de influências apaixonantes, e que Lula Queiroga nos oferece em « Tem juizo mas não usa ». A cada vez que se ouve, ele nos aponta novas surpresas através dos contornos de cada linha melódica. Ainda é muito cedo para dizer se esse álbum será uma da melhores produções do ano, mas será difícil que se faça algo mais comtemporâneo.

En vidéo: LULA QUEIROGA (live): « Tem juizo mas não usa » (Pedro Luis/ Lula Queiroga)
LENINE: "Dois olhos negros" (live MTV") (Lula Queiroga)



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