Assim como para 2009, a série de resenhas
« Sobrevoando 2010 » se propõe a rever, de forma subjetiva, alguns álbuns lançados ao longo do ano inteiro. Falo daqueles que vieram a me interessar por diversos aspectos. Infelizmente, com alguns encontros musicais faltando, devido à indisponibilidade de determinados cd’s no mercado. Alguns dos álbuns abaixo citados já foram inclusive resenhados aqui no blog, cada qual a seu tempo...

A princípio associado à cena funk carioca em função de suas colaborações para os trabalhos de
Pedro Luis e
Fernanda Abreu lá pelo final dos anos 90,
Rodrigo Maranhão (igualmente à frente do grupo percussivo
Bangalafumenga) revelou-se mais tarde um bom compositor, sensível e delicado, a partir já de seu primeiro excelente álbum
« Bordado » (2007). Bastaram
Maria Rita (
Caminho das Águas) e
Roberta Sá (
Olho de boi, Samba de um minuto) fazerem eco às suas composições para que ele se tornasse um compositor promissor da nova geração.
« Passageiro », seguindo as pegadas de
« Bordado », mescla, num clima poético feito de melancolia e de nostalgia, ritmos como o xote, o baião, a toada, a valsa, ou até mesmo o samba. Os arranjos adicionam um toque urbano e contemporâneo (uma pouco como faz seu amigo
Edu Krieger), e apenas a voz do artista permanece ainda num estágio que não permite um entusiasmo sem reservas sobre o álbum. Mas
« Passageiro » continua, no entanto, bem acima da maioria das procuções desse ano.
« Fé na festa » é o primeiro trabalho realmente convincente de
Gilberto Gil, desde que ele deixou seu posto ministerial em 2006.
« Banda larga cordel » (2008) veio a revelar-se um álbum bastante morno, com um Gil em modesta forma vocal. Mas o trem começou a voltar aos trilhos em 2009, e o baiano lançou então o cd/dvd
« Bandadois », resultado de uma tournée mundial acústica com seu filho
Bem Gil, por vezes acompanhado do violoncelo de
Jacques Morelenbaum.Lançado às vésperas das festas juninas,
« Fé na festa » é constituído de inéditos de sua lavra, contrariamente ao álbum «
Eu, tu eles » (2000), que dentro de um mesmo estilo musical, revisitava o repertório de grandes compositores do Nordeste. O resultado é entusiasmante, simples, popular ; e, essencialmente dançante, apresenta pequenas pérolas que bem poderiam abastecer, com alguns títulos já clássicos, o repertório do Forró e do Baião.
Isso é o que me leva à seguinte reflexão : com
Bethânia, Caetano, e em breve com o grande retorno tão esperado de
Gal Costa, em 2011, os
« doces bárbaros » da Bahia estão mais do que nunca presentes na cena brasileira, e em grande forma !
Leny Andrade poderia cantar a lista telefônica ou a
Declaração Internacional dos Direitos do Homem ; ainda assim, ela continuaria sendo sempre uma das maiores intérpretes brasileiras, mesmo com todos os estilos possíveis embaralhados.
Associada à Bossa, e especialmente à Bossa Jazz, Leny nos retorna com um álbum bem distante de seu gênero predileto com
« Alma mia », que reúne 14 boleros cantados em espanhol. O grande mérito do disco vem do fato de nos apresentar um repertório saído de um lugar absolutamente comum, produzido pelo pianista
Fernando Merlino. E se a escolha desse gênero musical, carregado de dramaturgia, possa nos parecer estranha, é bom lembrar que a cantora viveu muitos anos –de 1966 a 1971- no México.
El dia em que me quiras (Carlos Gardel/ Alfredo Le Pera) e
Vete de mi (Virgilio Expósito/ Homero Expósito) nos mostra a maestria alucinantemente intacta da artista que- mesmo que preferíssemos vê-la retornar através de um caminho mais jazz- possui a força e o talento (como
Nana Caymmi nesse mesmo gênero) capazes de nos transmitir uma emoção impossível de não nos arrebatar.

A despeito de já contabilizar seis discos em seus ativos,
Antonio Villeroy é um nome que permanece ligado, antes de tudo, a uma série de títulos –geralmente sucessos- que ele escreveu com/para
Ana Carolina, desde 1997.
Como prova disso, vide a presença de sete títulos de sua autoria no álbum
Perfil, uma compilação da potente cantora de Juiz de Fora (MG).
Porém, o compositor gaúcho colocou igualmente seu talento à disposição dos repertórios de
Maria Bethânia, Ivan Lins, Gal Costa, Mart' Nália, Moska, Paula Lima, Sandy e Junior, Eliana Printes, Bárbara Mendes, Luciana Melo, Preta Gil, e ainda
Luiza Possi.Em
« José » (lançado em maio, e largamente comentado aqui no blog e também no programa de rádio Tropicália) o artista parece ter decidido afirmar-se definitivamente sem ter que passar através de outras vozes. E ele prova, por sinal, que seus talentos de intérprete são inegáveis. Ele assina aqui duas das mais belas baladas do ano :
Recomeço e
A flor que eu te dei ; em duo, respectivamente, com
Maria Gadú e
Teresa Cristina. E todo o resto do álbum flerta talentosamente com bossas, milongas, e baladas caretas e diabolicamente eficientes. E é talvez por causa desse aspecto excessivamente « limpo », « perfeito », carente de alguma aspereza ao longo de sua audição, que poderemos encontrar o único defeito desse muito bom álbum...

Em 2007,
Fino Coletivo –esse grupo de 8 integrantes que se tornaram 6- lançou um primeiro álbum festivo e despretensioso, que apresentava uma habilidosa mistura de samba, de funk, e de pop, o qual rendeu algumas pequenas pérolas dançantes como
Tarja preta, Dragão, e
Boa noite.O grupo carioca –que conta agora em suas fileiras com
Donatinho nos teclados (filho de
João Donato)- afirma-se em 2010 através de seu segundo álbum, que inclina-se bem mais para o reggae e sobretudo para o groove disco (
Ai de mim, Doce em Madrid, Abalando geral). O conjunto continua muito sedutor, sem no entanto ser essencial- mas esse não é mesmo o objetivo do
Fino Colectivo.
Note-se que, como todo bom grupo ou artista « swing » que surge de um tempo para cá, o Fino sofre a influência marcada e assumida de
Jorge Ben(jor), que permanece indelével...

Existem os artistas que irritam a crítica por seus talentos inatos para criar uma música pop devidamente enquadrada que –quer a gente queira ou não- se revelam de uma assustadora eficiência. Por mais que se tente resistir, é um pouco como esses filmes « blockbusters » americanos : cheios de boas intenções, uma vez que não conhecemos a trama, mas que em algum momento, vão insistir em nos arrancar uma lágrima, assim que chegarem os violinos.
Como é o caso de
Jorge Vercillo que, álbum após álbum (
8 em estúdio, desde 1994), tornou-se uma máquina de cuspir sucessos impressionante. Assim, é natural que
« D.N.A » não traga muitas surpresas, e use das mesmas fórmulas sem parar ; mas assim como em seu álbum precedente,
« Todos nós somos um » (2007),
Vercillo procura inserir, a cada dois títulos « adequados », alguns trabalhos menos evidentes : o cool e jazzy
Memória do prazer ; o solene
Há de ser, em duo com
Milton Nascimento ; o samba
Verdade oculta ; e o belo
O que eu não conheço, oferecido a
Maria Bethânia em 2009 para seu álbum
« Tua ».Naturalmente,
Caso perdido prova que ele ainda não está pronto para se despojar da influência chorosa (e confessa) de
Djavan. Mas no final das contas, o imprtante é a gente saber se J
orge Vercillo, sob seu aspecto de genro perfeito, é um artista sincero... E quanto a isso, eu não tenho qualquer dúvida.
Yamandu e Valter, 14 cordas e 100 anos juntos...
A vantagem dos instrumentistas virtuoses, é que eles não são avaros em suas produções, geralmente excelentes. É o caso de
Yamandú Costa, que sempre nos presenteia com no mínimo um álbum por ano...
« YV » reúne
Yamandu (30 anos) a
Valter Silva (70 anos), outro Às da guitarra de 7 cordas, para uma visita ao repertório do samba e da seresta ; mas sobretudo do choro. No programa, os temas conhecidos de
Dorival Caymmi (
Rosa Morena),
Dilermando Reis (
Tempo da criança),
Nelson Alves (
Mistura e manda), e outras composições menos populares pescadas dos repertórios de
Pixinguinha, Jacob do Bandolim e
Canhoto da Paraíba. Soberbo de ponta a ponta...

O ano de 2010 é também marcado por ser aquele do centenário do nascimento de
Noel Rosa (1910-1937), o que finalmente dá oportunidade a
Martinho Da Vila de dedicar um álbum inteiro ao poeta e cancioneiro de
Vila Isabel (Zona Norte do Rio), importante cronista do Rio de Janeiro do início do século XX. Uma figura importantíssima da cultura brasileira, com uma obra tão vasta quanto foi curta sua vida.
Em
« Poeta da cidade », Martinho optou então por se concentrar nas composições assinadas unicamente por Noel, letra e música com exceção de
Filosofia, composta em parceria com
André Filho. Daí em diante, encontramos então títulos menos conhecidos (
Século do progresso, Quando o samba acabou) dentre outros inevitáveis dentro de um projeto como esse aqui (
O X do problema, Último desejo, Coisas nossas).
Soberbamente produzido por
Rildo Hora,
« Poeta da cidade » nos dá a oportunidade de ouvir duos com Martinho e as jovens promessas femininas do samba que são
Aline Calixto e
Ana Costa, com mais suas três filhas :
Analimar Ventapane, Maira Freitas, e
Mart’nália. Belo álbum, o qual merece ter sulinhado também o grafismo bem cuidado da capa e do livreto...enquanto o cd ainda existir em sua forma física... !

Com respeito ainda à era de ouro da Música Popular Brasileira dos anos 1930 a 1950, e seus tesouros esquecidos e finalmente redescobertos,
Geraldo Leite inclinou-se sobre os arquivos do
Instituto Moreira Sales, a fim de garimpar pequenas pérolas obscuras escritas por nomes também de prestígio como os de
Ary Barroso, Pedro Caetano, Assis Valente, Luiz Gonzaga, Lamartine Babo, Ataulfo Alves, e ainda
Noel Rosa.Em
« Sopa de concha » (título composto por
Alcyr P. Vermelho e
Pedro Caetano em 1941), Geraldo reúne seus antigos colegas do
Rumo, célebre grupo da vanguarda paulista dos anos 80, para aplicar um choque de esplendor a essas canções deliciosas, esquecidas sem que se saiba exatamente o por quê.
Ao lado de
Geraldo Leite, relembramos então os nomes de
Luiz Tatit, Ná Ozzetti, Gal Oppido, Pedro Mourão, e também de outros que formavam o
Rumo entre 1974 e 1991 ; tudo isso produzido cuidadosamente pelo guitarrista e arranjador Swami Jr.

E enfim…
« Zé Ramalho canta Jackson do Pandeiro ». Depois das homenagens prestadas a
Raul Seixas, Luiz Gonzaga e Bob Dylan, Zé Ramalho aborda o repertório dessa grande figura do Nordeste que é
Jackson do Pandeiro (1919-1982). As gravações de Ramalho datam de diversas épocas, mas o álbum nos traz de qualquer maneira 6 músicas inéditas, sendo que 4 gravadas em março de 2010. O conjunto do trabalho é muito coerente e digno de interesse.
« 13 parcerias com Cazuza », de
George Israel. O guitarrista, saxofonista e compositor do
Kid Abelha lança seu terceiro álbum solo sobre aquele que ele revisita através de 13 de 19 canções escritas em parceria com o roqueiro e poeta mítico,
Cazuza (1958-1990). Para levar a cabo tal projeto, ele convida
Frejat, Ney Matogrosso, Sandra de Sá, Paulo Ricardo, Evandro Mesquita, Elza Soares, Marcelo D2 e
Tico Santa Cruz, para um resultado, no final, não muito convincente... Os textos de Cazuza suplantavam com frequência a fraqueza de certas melodias, e mesmo os hinos que são
Brasil, Solidão que nada e
Blues do ano 2000, não nos deixam esquecer as versões originais, bem mais viscerais.
« Fala geral », de
Rogê, apresenta também esse ano, dentro do projeto
« 4 cabeça », um álbum que, como o Fino Coletivo, fica na linha de
Jorge Ben(jor), com muito êxito. Mas além da veia samba funk,
Rogê aborda com alegria outros horizontes musicais como a bossa, o reggae, ou o samba mais tradicional, fazendo de
« Fala geral » algo essencialmente carioca. Projeto bastante bem sucedido...