A Alma do Mestre sobrevoando Daniel Jobim, Milton e Paulo Braga (foto divulgaçao)
Revendo minha agenda do dia 21 de março, percebo que pretendia assistir à Olivia Byington. Mas lembro agora que não fui a nenhum show naquele dia.
Na verdade, acho que fui ao Rio Scenarium, na Lapa, a fim de mostrar esse lugar excepcional para amigos portugueses. E até sambamos... como pudemos…
Em compensação, posso afirmar, com certeza, que no dia seguinte – 22 - fui assistir ao show do Milton Nascimento com o Jobim Trio (Paulo e Daniel Jobim, junto com o sempre presente baterista Paulo Braga) no novo espaço do Mistura Fina.
Eu já tinha comprado esse ingresso, por um preço, a meu ver, muito alto (R$220,00). Fiz isso assim que cheguei ao Rio. Sobre o preço, deixo a questão em aberto para seus comentários. De um lado, esse show não cairia bem numa sala como o Canecão, onde o preço provavelmente seria algo como a metade do que se paga no Mistura Fina. E aqui vem a questão mercantil da oferta e da demanda. Por que a casa, com seus 250 e poucos lugares, deixaria de cobrar R$220,00, sabendo que esse show certamente permaneceria lotado, pelas próximas semanas? Acreditamos que, por até uns R$500,00, haveria gente disposta a assistir ao show. Por outro lado, será que a Bossa Nova deve carregar ainda essa imagem de uma música criada por músicos de classe média alta, dirigida a um público desse mesmo patamar finançeiro, deixando de fora amigos meus, que me confessaram terem lamentado o fato de não terem podido ir por causa do preço. Ainda bem que promoveram no Rio eventos como aquele show grátis em Copacabana, em fevereiro, para agradar a todo mundo.
Mas não quero me alongar nesse debate; é só a minha visão – a visão de um europeu - que pode estar equivocada…
Quando eu soube, dois ou três meses atrás, do projeto Milton/ Jobim, pensei imediatamente num show que meu amigo Tuka tinha gravado para mim em 1991, numa VHS. Um belo evento, num belo cenário: os jardins do Palácio do Itamaraty (RJ); divulgado pela TV Bandeirantes. Me lembro que esse encontro intimista me decepcionou bastante. O Milton nao se sentia à vontade, e o Tom cantando clássicos do Bituca,... realmente gente,... nao dava! Porém, remando contra a maré, sou daqueles poucos que, na maioria das vezes, preferem ouvir grandes obras do Tom na voz do próprio compositor. Tom e sua voz de violoncelo, retomando o fôlego para mergulhar na frase seguinte. Ainda prefiro ouvir emoção do que vituosismo.

Capa de "Novas bossas", design bossa novista de Elisabeth Jobim, inspirado pelo pintor Piet Mondrian(dixit C.G Villela) com outra capa do Eddie Moyna, anos 60 (foto Daniel A.)
O DISCO:
Bem antes de ter comprado o disco «Novas Bossas», do Milton com o Trio, eu já tinha lido todos os tipos de comentários - desde os elogios mais rasgados até as críticas mais severas. A gente sabe que esse tipo de «disco – projeto» é sempre sujeito a muita polêmica. Mas não tenho qualquer tipo de preconceito, tanto em relação a este
Milton – Trio, quanto, por exemplo, ao mais recente CD de uma Claudia Leite. E se fosse o caso (mas não é!!!) eu poderia até destacar o trabalho da baiana, deixando de lado o do mineiro.
Então, prestei bastante atenção às «novas bossas» desse «belo horizonte do rio», e assim fui conquistado desde a primeira audição. As 14 faixas foram bem distribuídas, sendo a primeira parte, com as regrava
ções das canções do Milton, seguida pelas 8 do Tom como prato principal.
Não estou aqui para fazer mais uma crítica ao disco, mas não pude resistir e acabei anotando algumas coisinhas:
Para mim, as regravações de «Tudo que você queria ser», que abre o álbum em grande estilo, ou do famosíssimo «Cais», não soam como apenas mais uma regravação. Arranjos simples e eficientes e tocado como se fosse a primeira vez, com a participação do Ricardo Villa no baixo. Também não foi uma decisão arriscada a de se incluir «Dias azuis» do Daniel Jobim como segunda faixa, pois a composição é realmente de alta qualidade. A meu ver, a boa surpresa mesmo foi a versão dessa pérola do Dorival Caymmi, «O Vento», que me surpeendeu de fato. O conjunto preservou a genialidade da canção, concedendo à mesma um minimalismo lancinante. O Milton joga aqui com suas oitavas sem a menor dificuldade.
A partir da faixa 6 - «Briga nunca mais», dipensável, a meu ver - o conjunto dá passagem em grande parte ao Mestre Tom, com um repertório que me surpreendeu até um pouco, mas muito bem escolhido. Mesmo lendo a capa do disco, achei estranho o fato de terem retomado «Chega de saudade», essa obra que me parecia óbvia demais. Porém, desde a introduçao, pelo ritmo inusitado emprestado a «Two Kites», também do Tom, percebi o quanto essa regravação fazia sentido.
E, mais ainda até, quando o Milton chega na parte…’não sai de mim’, na qual ele imprime a sua dramaturgia tão própria.
«Medo de amar» relembra, para quem tinha esquecido, que o Vinicius, quando queria, podia ser também um excelente melodista; enquanto isso, a pouco conhecida «Velho Riacho», do Tom, é incrivelmente parecida com uma música do Baden Powell.
O disco acaba com «Trem de ferro», na qual o canto do Daniel parece um «sampler» da voz do Tom. Apenas «Esperança perdida» e «Samba do avião» poderiam ter sido dispensadas, o que resultaria numa bela obra de 12 faixas.
Para acabar com o disco – ufa!... Se achei morno o título, gostei do design da capa da Elisabeth Jobim, que com sua simplicidade / modernidade me fez lembrar, à sua maneira, as melhoras capas que o César G. Villela fazia para o selo «Elenco», do Aloysio de Oliveira. Afinal de contas, eu o considero como o verdadeiro «designer» da Bossa Nova.
Agora, finalmente...

Milton e "quarteto" Jobim ( foto do Fernando Souza)
O SHOW:
Também já tinha lido coisas deslumbrantes sobre o show, mas um dia não é como o outro, dependendo do perfil de alguns artistas... os melhores, geralmente!
E eu provavelmente não assisti à melhor apresentação dessa curta temporada.
O quarteto começou com clássicos do Tom, instrumental ou nas vozes de Paulo e Daniel; e o Milton entrou no meio de «Só tinha de ser com você», o que prenunciava um bom momento. A banda misturou mais as canções do que no disco, o que acabou atrapalhando um pouco a homogeneidade do roteiro. Pequeno detalhe.
Mas já dava para perceber que o Milton não estava em plena forma, encontrando mais segurança nas suas próprias composições; os backing vocals do Paulo e do Daniel é que conseguiram manter a situação sob controle. Aliás, se o Paulo se apresentou, como de costume, no papel do fiel músico dedicado à obra do pai, sempre humilde e eficiente, já o Daniel «regia» a banda, com seu lado mais extravertido e jovial (dotado, inclusive, de uma grande técnica como pianista ). Ele, o Daniel, para mim já não é mais apenas «o neto do»…
Aí veio «Eu sei que vou te amar»… e o Milton se perdeu totalmente. Desafinou bem no meio da canção e não conseguiu atingir as notas mais altas. Pequeno fracasso. Depois dessa, era como se o Bituca tivesse ficado com medo de enveredar por suas ousadias vocais - o que ele pode fazer facilmente (não como o Gil!). Optou então por seguir nos trilhos das melodias, sem riscos, como se temesse falhar mais uma vez. Pode acontecer com os melhores cantores do mundo, mas num «pocket show» é difícil disfarçar mesmo os pequenos erros, dada a proximidade / intimidade com o público. Bom, afinal, Milton chegou ao bis com uma versão, melhor do que a do disco, de «Samba do avião», e terminou pousando seguro em seu próprio campo com «Nos bailes da vida» - hino que tudo mundo cantou - fechando a noite com grande entusiamo e alegria.
Nota: Infelizmente esse post vem recheado com fotos de terceiros, e não de minha própria autoria, como eu gostaria. Acontece que a direçao da casa não me autorizou a fotografar perto do palco, mesmo sem flash, nem mediante a apresetação de meu crachá de jornalista - enquanto isso, pequenas luzes pipocavam sem parar, na platéia, durante todo o espetáculo. Uma pena.